Ver tão Contemporâneo

11jan10

por Mariana Lage

Em sua 4ª edição, o Verão Arte Contemporânea mostra a que veio e reforça a resistência dos espaços de pensamento artístico da cidade. Pois, por distoante que possa parecer, na cena belorizontina, quem tem fama custa a deitar na cama. Quando se trata de trabalho de verve inovadora, de releituras críticas ou de reconstrução de formatos, gêneros e linguagens, os artistas da terrinha gozam de fama internacional, mas são pouco reconhecidos, divulgados ou assistidos entre seus pares. Não à toa, esse é o leitmotiv que embala as ações do Grupo Oficcina Multimedia (GOM), em parceria com a Mercado Moderno, ao propor nas primeiras cinco semanas do ano uma coleção de trabalhos “comprometidos com a complexidade dos tempos atuais”.

Entre 9 de janeiro a 10 de fevereiro, 23 espaços culturais expõem 63 artistas ou grupos de artistas que estiveram em cartaz no último ano com trabalhos recentes e poucas apresentações – tudo isso com uma verba irrisória de 80 mil reais. Contabilidade a parte, para a curadora Ione de Medeiros, o fundamental é conseguir congregar uma série de espetáculos, tanto de iniciantes quanto de grupos mais maduros, que desenvolvam vertente investigativa, inquietante, autoral. “A nossa função é dar visibilidade à produção contemporânea. Antes de tudo, desejamos apresentar ao público belorizontino espetáculos envolvidos em pesquisas e experimentações de linguagens”, expõe.

Para abrir o evento, a noite de sábado acolheu no Oi Futuro o espetáculo Sonhos de uma noite de Verão, produzido por Ione de Medeiros e Oficcina Multimédia, com participação colaborativa de Paulo Beto, na direção musical e no vídeo, e Lúcia Santiago, coordenando o núcleo moda.

Com um título que carrega uma homenagem a Shakespeare, a apresentação configurou-se como uma grande composição no instante, ou, nas palavras de Ione, como “uma grande instalação”. “Trabalhamos com os artistas a partir de algumas diretrizes. A temática proposta foi a Bela Adormecida que depois de anos de sono e sonhos disperta no verão cheia de desejos”, explica. Segundo a curadora, a idéia foi trabalhar os grupos separados por linguagens – moda, música, atuação cênica – e realizar encontros de diálogos. Os resultados mais recentes das pesquisas de cada núcleo, conduzidas desde agosto do ano passado, encontraram-se na primeira semana de janeiro para formalizar nortes de atuação/composição.

No Hall e no Teatro Klauss Vianna, do Oi Futuro, o público presenciou uma série  de sucessivos exemplos do que seja contemporâneo. Foram criados  grandes espaços dedicados à improvisação. E, na abundância de exemplos, não há como evitar um certo incômodo aqui, um riso nervoso ali, um escárnio do lado de lá.

A começar pela ala vestimenta, trazendo muito excesso e alguma indeterminação. Excesso de referência, excesso de tecido, excesso de falta de unidade. Os designers de moda convidados trabalharam cada qual seus ‘figurinos’ e ensaiaram com seus ‘modelos’ os gestos que deveriam encarnar seus “objetos vestíveis”, na expressão de Lúcia Santiago. Algumas roupas destacaram-se por trabalhar ousamente a temática, indo além da transição da infância para a puberdade, característica do conto de fadas, e extrapolando para uma leitura contemporânea, como foi o caso de Stéphanie Padilha e da dupla de estilistas Virgílio Andrade e Morgana Marla (responsáveis pela marca Duotonee). Estes últimos modelaram, em suas expressões, “uma bela adormecida pós contemporânea, andrógena, sem gênero e sem território. Uma ‘Bela’ que precisa de uma nova identificação a cada momento para se reconhecer”. O estilista Virgílio, escárnio e androginia em pessoa, encarnou sua própria roupa, dormindo, caminhando e debochando em cima de um sapato de plataforma de 10 cm e por trás de uma ambígua e quase amorfa máscara laranja. Ele encarregou-se da abertura e do ponto auge do momento desfile. Já próximo ao final da apresentação, o ‘desfile’ pecou quando os modelos encararam a passarela de forma corriqueira, com mão na cintura e andar a lá Giselle Bündchen. Excessões de novo com Virgílio Andrade e o modelo de Stéphanie, arrastando sombriamente seu casco negro de pesos e pesadelos de noites de verão.

Multiplicidade de referências esteve presente também na música. De forma harmônica, os 10 músicos no palco conduziram a performance músical entre cerca de cinco trechos marcantes: começando com uma atmosfera etérea a ambientar a entrada das belas-outrora-adormecidas; um segundo começo, de inspiração György Ligeti + metrônomo; três, uma caixinha de música com mantra japonês; quatro, momento deboche música eletrônica à la boate; e, para finalizar em grande estilo, extase big band free jazz.

Apresentação estonteante acompanhada de perto por um grupo de bailarinos-atores a desenvolver série de loopings temáticos. De forma caricatural, eles exibiram seus rebolados em momentos casa de strip tease, seus gingados de lutadores amadores de boxe e sua habilidade já autonomatizada de jogadores de video-game. Mais risos para a ocasião em que, com intervenção musical eletrônica de Paulo Beto, todos os bailarinos se moveram euforicamente como se estivessem engajandos no jogo, outrora tendência mundial, Parkour.

Todos juntos, os elementos causaram estranhamento entre parte do público, mas causou também entusiasmo e aplausos ao final. Em alguns momentos, ver tão contemporâneo incomoda, principalmente, àqueles desejosos da – ou tão-somente acostumados com a – beleza simétrica, a temática transcendente, a narrativa com início, meio, fim e a moral da história. Aqueles abertos à renovação do olhar, ao diverso e ao intrigante sairam com a pulga atrás da orelha ou com um sorriso curioso nos lábios. Espaço de reflexão tem a característica de começar assim: plantando interrogações, indignações ou prospecções.

Como abertura, Sonhos de uma noite de verão mostra o que é contemporâneo de forma pulverizada, caricatural e irônica. E nada mais hodierno que a multiplicidade de referências, o excesso e o deboche. A noite de improvisação mostra também o que é o Verão Arte Contemporânea e o que se pode esperar de sua programação.

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5 Responses to “Ver tão Contemporâneo”

  1. legal!!

  2. 2 thefa

    Li o texto, Luci. Gostei enquanto resenha, mas o conteúdo em relação ao VAC é, no mínimo, desanimador.
    você realmente acha que já na segunda década do Século XXI, a Arte apenas tem que levantar questões? Debochar, exagerar e satiririzar?
    Minha opinião (o que obviamente não é uma verdade absoluta, é só um pensamento) é que esse tipo de manifestação já está obsoleta. DuChamp e CIA LTDA (rs) já fizeram coisas como essa há quase 60 anos.
    Bom, não fui ao VAC ainda, mas pretendo, ver para crer que em 2010 a maioria das manifestações artísitcas continuam como as do ano em que minha mãe nasceu.

    Um excelente ano. beijos. Saudades de você!

  3. Oi, passei pra conhecer seu blog, e desejar boa noite.

    muito legal o conteúdo!

    aguardo sua visita 🙂

  4. 4 Ste

    Bis bis mariana.your work is superb.im impressed.look forward to enjoying more .thank u.


  1. 1 Olho-de-Corvo » um blog de Luiz Carlos Garrocho » Verão Arte Contemporânea: edição 2010

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