Gilberto Esparza

05nov09

por Daniel Toledo

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Uma boa notícia para as pessoas que tem pouco tempo e disposição para cuidar de plantas domésticas: foi desenvolvido um vaso-robô capaz de movimentar-se de acordo com a presença de luz solar. O que poderia ser confundido com mais uma comodidade da vida urbano-individualista, é na verdade uma obra do artista mexicano Gilberto Esparza – um dos convidados da 7a Bienal do Mercosul, que segue em cartaz até o dia 28 de novembro em Porto Alegre.

Nascido nos anos 70, Esparza tem desenvolvido um trabalho artístico ao mesmo tempo crítico e bem humorado, que desvenda as cidades como complexos e curiosos ecossistemas. Nesse sentido, as relações de consumo, reciclagem e parasitismo estabelecidas em ambientes naturais são poeticamente reinterpretadas por inusitados elementos urbanos como postes, fios de energia elétrica, montes de lixo e, como já se viu, plantas domésticas.

Por meio de intervenções estáticas e de robôs que portam idéias, desejos e medos, Esparza trata de temas extremamente pertinentes à vida urbana (sobretudo em cidades latino-americanas): desperdício, escassez, precariedade e esforços de subsistência, para citar alguns. Segundo ele, a cidade é um organismo vivo e a tecnologia – quase sempre low-tech – pode ser tratada como uma parte essencial desse organismo. Para além dos efeitos de interação e animação urbana, o artista interessa-se pela possibilidade de provocar perplexidade, de confundir e impressionar os transeuntes, motivando-os a decifrar acontecimentos estranhos e aparentemente espontâneos. Na visão de Esparza, essas micro-intervenções estão diretamente relacionadas ao que acontece no nível macro – e quem dirá que não?

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A partir dessa concepção e inspirado por vendedores ambulantes que fazem ligações clandestinas entre seus quiosques e postes de rua, o artista desenvolveu o projeto Parasitos Urbanos. De um modo geral, o projeto compreende o desenvolvimento de formas artificiais de “vida” que subsistem às custas de fontes de energia geradas pela espécie humana. De acordo com necessidades específicas, essas espécies incorporam-se a determinados espaços e estruturas da cidade e passam a habitar, em caráter mais ou menos permanente, tais paisagens urbanas. Enquanto diablitos e colgados alimentam-se dos cabos de energia que atravessam o céu das cidades, os pepenadores habitam pequenos montes de lixo tecnológico que comumente se acumulam em algumas regiões de grandes cidades.

A intervenção Cancer de Urbe, por sua vez, traz para o espaço da cidade a lógica inconsequente das células câncerígenas. Nesse trabalho, determinados elementos da paisagem urbana parecem sofrer processos de proliferação acelerada, desordenada e descontrolada, alterando o equilíbrio de outros elementos do entorno. Trata-se, assim, de anomalias visuais e funcionais inseridas no contexto da cidade – como um poste em que as luminárias se multiplicaram de modo excessivo e disfuncional ou uma faixa branca de sinalizacão que acabou tornando-se mais longa do que a própria rua.

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Mas é com alguns exemplares de uma outra espécie de parasita urbano que, ao lado da mulher-automóvel de Marcela Armas e da (incrível) kombi-árvore de Pablo Rivera, o artista mexicano integra a mostra Texto Público da 7a Bienal do Mercosul. Para visitar o Brasil, Esparza trouxe alguns robôs-moscas que, seja em vagões de metrô ou galerias de arte, mantêm o legítimo hábito de disputar território com qualquer ser humano que se aproxime. Vivemos, afinal, em tempos de escassez e nem mesmo as moscas estão livres da batalha pela subsistência – ainda que precária.

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