Blanche Neige

02nov09

por Mariana Lage

madrasta

A respeito de sua mais recente criação, apresentada em BH neste fim de semana nos dias 1 e 2 de novembro, Angelin Preljocaj a descreve como “um conto de fadas às avessas”. Segundo o coreógrafo, sua versão de Branca de Neve nasceu de um desejo de contar uma história por meio da dança contemporânea. Diante de suas criações marcadamente abstratas, Preljocaj, que empresta o nome à companhia, diz ter se guiado também pela vontade de “evitar ficar repetitivo” e fazer algo completamente diferente.

Ao aliar ao seu processo compositivo o figurino de Jean Paul Gaultier e a música de Gustav Mahler, o Ballet Preljocaj promete proporcionar a releitura contemporânea de uma prática clássica: contar histórias com início, meio e fim e com uma lei moral que a anima. Em entrevista a jornalista francesa Àgnes Freschel, e ao que parece a única cedida pelo coreógrafo desde a montagem do espetáculo, ele explica ter seguido a versão dos Irmãos Grimm, “com apenas algumas variações pessoais baseadas na minha própria análise dos símbolos do conto”. Se o psicanalísta norte-americano Bruno Bettelheim classificou sua Branca de Neve como um Édipo invertido, o coreógrafo assume um desejo de inversão: “A perversa madrasta é, sem dúvida, a personagem central no conto. É ela quem eu examino através de sua narcisista determinação de não abrir mão da sedução e de seu papel como mulher, mesmo que isso signifique sacrificar sua enteada”.

De fato, uma versão de Branca de Neve às avessas seria uma história em que a madrasta se torna a protagonista. No entanto, o avesso da ‘moralidade’ de um conto infantil a la Irmãos Grimm seria uma narrativa destituída de vítimas e carrascos. Numa história intitulada “A madrasta”, quem seria essa Branca de Neve que deseja lhe tomar o lugar e o toma? Quais forças estariam em embate entre brancas de neves, anões mineiros, príncipes e madrastas? E o que elas representariam – para além de um pensamento “o bem vence o mal”?

Em Blanche Neige os elementos contemporâneos em diálogo no palco estão a serviço de uma prática clássica não revisada. Não há desconstrução da narrativa e a releitura dos símbolos não parece ser o marco do trabalho, porque não se mostra suficientemente evidente para marcar de fato uma ruptura ou uma inovação na leitura. É releitura ou desconstrução simbólica de forma ambígua, uma vez que já na versão dos Irmãos Grimm existe essa oscilação entre a pureza infantil e o desabrochar do feminino. Uma ambiguidade que constantemente brinca com o imaculado e com o lascivo e que Preljocaj traz aqui e ali nos pax-de-deux da princesa em momentos e com parceiros diferentes.

maca

Sem dúvida, é o desabrochar do feminino que está em questão, mas o embate entre virgindade e lascívia em Preljocaj camufla-se em grande parte do espetáculo sob o confronto entre a inocência e pureza da princesa (como o belo, o bom e o verdadeiro) e a vaidade da madrasta (como a maldade humana). Num conto de fadas às avessas, a voluptuosidade do corpo de baile apareceria como parte central e como campo de batalha em que as forças e os símbolos da branca de neve e da madrasta estão em transição. Nesse caso, seria melhor pensar em lascívia do que em luxúria, a fim de que a releitura atual de um conto infantil não se torne moralizante. Embora os termos sejam bastante próximos, um deles carrega consigo carga de pecado e culpa. Portanto, pensar a sensualidade evidente no momento de transição de menina a mulher, sem carregar tal momento do peso extra da culpa da moral. Numa reversão deste conto infantil, seria preciso evidenciar a carga simbólica de cada personagem sem contudo polarizá-los como representantes do bem e do mal.

Num conto de fadas às avessas, a madrasta não é boa nem má. Ela simplesmente é o feminino em suas múltiplas faces. Uma Branca de Neve invertida desabrocha o feminino de forma voluptuosa sem contudo abdicar ou retornar a sua brancura.

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