Magdalena Abakanowicz

30jul09

por Daniel Toledo

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Quando Magdalena Abakanowicz tinha nove anos de idade, viu tropas nazistas e russas invadirem o país onde nasceu e vive até hoje. Daí em diante, foram mais de quinze anos de rígida dominação stalinista sobre a sua cidade natal. Durante esse período, todas as formas de arte produzidas no país deveriam respeitar as regras e limitações do realismo socialista. Qualquer linha desnecessária era, por exemplo, imediatamente eliminada dos desenhos produzidos pelos jovens artistas que se formavam nas universidades polonesas. Foi justamente nesse contexto, entre 1950 e 1954, que Abakanowicz se formou pela Warsaw Academy of Fine Arts.

Mas com a morte de Stalin, em 1953, abriu-se um caminho para que os artistas poloneses tivessem contato com a produção de cidades ocidentais como Paris, Veneza e Nova York. Já na década seguinte – em meio aos movimentados anos 60 – Abakanowicz ganharia reconhecimento internacional pela criação dos Abakans, humanóides que até hoje caracterizam o seu trabalho. Em suma, trata-se de figuras humanas superdimensionadas, sempre “descabeçadas” e instaladas em grandes grupos. Aos olhos daquele que observa a distância, parecem todos iguais – como um exército russo, um grupo de prisioneiros poloneses ou uma multidão que se acotovela nas ruas movimentadas de uma cidade grande qualquer. Mas quem se aproxima dos Abakans pode perceber detalhes e texturas que os diferenciam.

Nas palavras da artista: “Talvez o núcleo da minha obra tenha se tornado a experiência da multidão, esperando passivamente em fila, mas sempre pronta para esmagar, destruir e adorar a partir do simples comando de um líder. Talvez seja o desejo de determinar qual é a quantidade mínima de pessoas necessárias para que as mesmas desapareçam e transformem-se em uma multidão. Me impressionam as situações em que a quantidade de pessoas deixa de importar e, então, quantificá-las deixa de fazer sentido”.

Em seu trabalho mais recente, chamado de Agora e instalado em 2006 no Chicago Grant Park, a equipe de Abakanowicz produziu, à mão, mais de cem Abakans, todos com aproximadamente três metros de altura e igualmente desprovidos de qualquer cabeça. As peças, que tiveram custo de U$3,5 milhões, foram produzidas em Varsóvia e financiadas pela própria artista, numa parceria com o Ministério da Cultura da Polônia. Múltiplas associações são possíveis, mas é inegável a força do discurso sobre o anonimato da vida – e da morte – nas grandes cidades contemporâneas. Por outro lado, parece interessante estabelecer relações entre a obra e a convivência da artista com o regime comunista, no qual aspectos como criatividade e individualidade eram fortemente reprimidos em nome de interesses coletivos.

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As fortes relações da artista com a Segunda Guerra Mundial lhe renderam ainda a oportunidade de criar uma obra para o acervo permanente do Hiroshima City Museum of Contemporary Art, no Japão. Em 1993, quarenta Abakans feitos em bronze foram instalados em uma das galerias abertas do museu. A obra recebeu o nome de Space of Becalmed Beings – algo como Espaço de Seres Acalmados – e ilustra perfeitamente a visão do crítico de arte Michael Brenson sobre a obra de Abakanowicz: segundo ele, os Abakans não são apenas objetos, mas também espaços que podem e devem ser “ocupados” pelo público. Nesse sentido, apesar de estruturalmente similares, cada conjunto de Abakans parece ganhar uma dimensão site-specific. Porque a experiência de uma pessoa que “ocupa” uma peça da Agora de Chicago parece ter pouco a ver com o que viveria a mesma pessoa, ao “ocupar” um dos Seres Acalmados de Hiroshima.

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2 Responses to “Magdalena Abakanowicz”

  1. 1 jorge solé

    e uma escultora fabulosa me inspiro nela para produzir

  2. 2 Cristina Froes

    Olá, eu gostaria de saber sobre as tapeçarias dela. Que artista fantástica.


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