Lantejoulas no meu tédio

17jul09

por Mariana Lage

camila

Em plena semana dos dias dos namorados, as ruas de Belo Horizonte ostentavam faixas pouco comuns. “Emerson, seu ciúme sufocou nosso amor”. “Bianca, descobri que não sou o homem para você”. “Rodrigo, meu amor por você acabou. Por favor entenda”. Num quarteirão qualquer, um carro de som chama por Luciana e o locutor, com sua suntuosidade costumeira, anuncia o término do namoro a mando de Otávio, que inspirado pelo fora de Caetano Veloso, retira alguns versos da música Não enche. Uma semana depois, nas paredes da Galeria Genesco Murta do Palácio das Artes, as faixas aparecem reunidas junto a registros de pichações e rabiscos em árvores e banheiros anunciando todos Declarações de desamor. Obras de Camila Buzelin. Obras ou registros?

Na exposição Lantejoulas no meu tédio, que reúne três trabalhos da artista desenvolvidos entre 2006 e 2009, somos confrontados com a comicidade das situações de fracasso e insucesso alheio. É cômico porque vivemos (ou recebemos o registro) a situação através do olhar estético. Até que ponto o pé-na-bunda foi simulado? Foram as faixas produzidas pela artista ou retratam, de fato, a dor e o dissabor do outro? Em Lacrimatório, chora-se por uma perda ou porque se corta cebolas? Em que medida as respostas a essas perguntas afetam nossa recepção desses trabalhos?

Se são ou não verdadeiras, se visam ou não um término trágico e grandiloquente, é suficiente saber que tocam o real. Há sim – e sempre haverá – uma Bianca, uma Camila, um Rodrigo, um Emerson que não são mais amados ou que não amam mais. Como na Quadrilha de Drummond, há sempre uma Lili que não ama ninguém. E há, com a mesma freqüência, um J. Pinto Fernandes que entra na história inadvertidamente. O que, afinal, é cômico? O fracasso, o amor ou o humano?

bianca

Todas as cartas de desamor são ridículas. Se não fossem ridículas, não seriam cartas de desamor. Pois, como se sabe, o contrário do amor, não é o desamor, mas sim a indiferença. Aquele que não mais ama não diz nem “sim” nem “não”, apenas não diz. Abstém-se. Ser indiferente: desprendido, apático, isento.

É por isso que as cartas de amor tanto quanto as de desamor são ridículas. São ridículas por expor aquilo que seria “melhor” não expor: as mazelas do sentimento, coração e mente (e o juízo!) em frangalhos. Como no episódio da adolescente japonesa surda-muda em Babel, expõe-se aquilo que não conseguimos lidar em nós mesmos. A ferida aberta de uma dor íntima e pessoal. A fragilidade daquilo que é sentido como vergonhoso, piegas, e ao mesmo tempo dilacerador e excessivo. O nu sem erotismo. É aí que reside o incomodo, o constrangimento. Intimidade pública, vergonha alheia, riso nervoso.

laranjas

Por uma estética do Não

No meu tédio, lantejoulas por favor! Numa tarde azul (ou cinza?), ao passar pela roleta, uma garota destrambelhada deixa cair (por acidente?) dez quilos de laranja. Pontos de luz, estranhamentos em um dia qualquer em que se sobe vagarosamente o “tobogã” da Avenida do Contorno. Como em toda intervenção urbana, uma interrupção no fluxo ordinário do cotidiano. Expostos o vídeo e as fotografias da performance/intervenção na galeria do Palácio, retira-se a surpresa e a solidariedade do espaço coletivo do transporte público e acrescenta-se o riso do tragicômico. Porque, afinal de contas, todo fracasso em público nos torna ainda mais irrisórios. Aquele que observa no espaço de exposição, vê de fora, aponta o dedo, ri. Motivo de chacota, escárnio e zombaria.

“Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar”, Fernando Pessoa em Livro do Desassossego. Numa estética do Não, todos somos vencedores porque, fracassados, rimos das impossibilidades e incapacidades, nossas e alheias. Sabendo-se sem. Sem desejo de ser mais.

Lantejoulas no meu tédio, de Camila Buzelin
25 de junho a 22 de julho
9h30 às 21h (terça a sábado) e 16h às 21h (domingo)
Galeria Genesco Murta (Palácio das Artes)
Entrada franca

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3 Responses to “Lantejoulas no meu tédio”

  1. 1 camila buzelin

    Mariana,
    adorei. Mais tarde te envio um e-mail com minhas impressões.
    Abraços e obrigada!
    camila

  2. 2 JoaoVP

    Muito legal o texto, dá vontade de ver o trabalho, pena que só fica atee dia 22. vou perder. abs João

  3. Ótimo texto.

    Abraços


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