O lugar do conceitual na arte

03abr09

por Mariana Lage

conceito

Vilém Flusser chamava de imagens-técnicas aquelas imagens produzidas por meio de aparatos tecnológicos. Resultantes da câmera fotográfica, do tubo catódico, da fita magnética ou do código numérico, tais imagens nos revelam que a escrita pós-histórica – se é que podemos falar assim – realiza-se por meio de imagens que retraduzem textos, superfícies pictóricas que “ilustram” teorias científicas e filosóficas do mundo. Se as imagens da pré-história tinham uma relação mais direta, mais tangencial à cena que as originaram – eram concebidas como espécie de “manual de sobrevivência” para futuras cenas a serem performadas fora da caverna (não a de Platão), nossas imagens se localizam ainda mais distantes do referencial e cada vez mais rodeadas por novos códigos.

Pensando no âmbito da produção artística atual, seria possível dissociarmos a arte contemporânea da lógica das imagens-técnicas? Mesmo que tenhamos uma obra constituída de intervenções na paisagem natural ou urbana seria possível pensar que essas produções se distanciam do que Flusser tem em mente quando falava das imagens pós-históricas? A julgar pela maneira como materiais e proposições são trabalhados por determinados artistas contemporâneos, poderia-se dizer que não.

Ok. Nosso pensamento pode não se organizar linear e diacronicamente como outrora acreditava a perspectiva moderna. Ok. A performance de nossas elocubrações pode mesmo se assemelhar à estrutura de associações livres e em rede das informações digitais. Contudo, seria mesmo inevitável que nossas imagens estivessem impregnadas de tal estrutura de pensamento que incorpora a complexidade de variadas teorias que o homem erigiu ao longo da história em torno de si mesmo, do mundo, da natureza, da sociedade?

Hans Robert Jauss e Arthur C. Danto pensaram que a arte pós-60 estabelece uma relação de interdependência recíproca com a filosofia da arte. É como se, dizia Danto, arte e estética – entendida como teoria filosófica da arte – tornassem-se uma a manifestação da outra. “… e não importa muito se a arte é filosofia em ação ou se a filosofia é arte em pensamento”. Para Jauss, a experiência estética da arte contemporânea é de fato mais reflexiva, mais intelectiva. Para ele, a fruição da obra “exige” o reconhecimento de determinadas atribuições do objeto capazes de o elevar ao status de objeto estético-artístico.

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O que muda a partir desta perspectiva de Danto e Jauss é que a “promiscuidade filosófica” da arte não se restringe à si mesma, ao domínio da estética filosófica. Pelo que podemos observar a partir da produção contemporânea, ao escolher materiais que compõem sua obra ou proposição artísticas, o artista demonstra possuir certo domínio, conhecimento ou ciência (no sentido de estar ciente) das questões menos superficiais que atravessam suas escolhas.

Alguns exemplos. A obra Migração de Vanderlei Lopes exposta Nova Arte Nova, no Centro Cultural Banco do Brasil: um tríptico composto de imagens de pássaros desenhados a partir da queima de pólvora sobre a madeira. O que as relações entre madeira e pólvora, pássaro e madeira, combustão e migração escondem ou revelam sobre as escolhas envolvidas na produção artística? Há também uma espécie de pano de fundo teórico, técnico e tecnológico nas obras de Eve Mosher e em sua preocupação ambiental, nos trabalhos do Poro e em sua inserção provocativa no cotidiano urbano, assim como em Michael Rakowitz, com seu “discurso” em torno de moradores de rua e espaços públicos. Ou ainda, a exposição mesmo que satírica de um certa ciência teórica da arte na obra Entrevista com o verde de Carlos Contente, também em exposição no CCBB São Paulo.

Na mesma exposição, contudo, verifica-se uma série de outras obras que revelam justamente uma apreensão mais estésica, ou mesmo, sinestésica de materiais e proposições artísticos – o que aponta para a falência de uma tentativa de generalizar toda a produção contemporânea sobre o teto de uma única vertente, a conceitual.

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4 Responses to “O lugar do conceitual na arte”

  1. A “estrutura” teórico-linguística-conceitual (mesmo que rudimentar, sempre existe uma estrutura…) que ajudou a compor uma obra não pode ser totalmente recuperada nem pelo próprio artista.

    Da mesma maneira, a “estrutura” teórico-linguística-conceitual que o espectador usa para interpretar/ler/fruir uma obra não pode ser totalmente recuperada por ele.

    O mais curioso é que uma e outra não precisam ser necessariamente iguais, e nem mesmo próximas. E mesmo que fossem, como elas não podem ser totalmente “recuperadas”, ninguém poderia provar isso.

    Pra mim, o “conceitual” estaria nos processos… no fazer e no fruir, no construir e no interpretar, no “enviar” a obra e no “recebê-la”… Eles se encontram em muitos pontos, evidentemente, mas nunca são totalmente unívocos… longe disso, imagino que sejam, na grande maioria das vezes, até opostos.

    Tudo isso pra dizer do efêmero de toda “leitura”, e de toda “escrita”. E pra dizer que o fruidor da arte sempre será também artista/criador, na medida em que a reescreve à sua maneira… ainda que essa maneira não seja a que nós entendemos como “certa” ou “justa” para com o fazer do artista.

    Tudo isso para dizer que gostei muito do post. E do blog.

    ; )

  2. Belíssimo trabalho Mariana!
    Me identifico muito com arte contemporanea e amei as descrições. Não sabia desse seu lado! =P parabenz!!
    ..de seu aluno e visinho: Lucas Coimbra

  3. O que quer dizer este ‘certo domínio’ me escapa.A ambiguidade da palavra ‘certo’ nos textos sobre arte é uma transposição do francês e que adquire uma conotação vaga em português.Antes houvesse de fato essa promiscuidade entre a arte, ciência e filosofia!Essa interdependência entre arte e as outras duas só funciona para os lados da arte, ciência principalmente não depende coisa alguma da arte.E afimar que artista é uma espécie de filósofo ou de cientista por possuir uma ‘certa’ consciência de uma ‘certa’ filosofia ou ciência que norteia seu trabalho, não tem nada de ingênuo: só funciona se amarrado pelos marcadores de poder que definem a certeza desse ‘certo’…

  4. É porque cada vez mais a arte é apenas a expressão da conduta, e não o objeto em si,. A arte se dissocia da produção e envolve a aura do artista como fonte, e portanto, causa primordial e elemento essencial. Dessa forma, como não se trata mais tanto um problema de técnica ou viabilidade por habilidade, e sim da escolha dos caminhos de contatos e a idéia da arte em si que definem as novas artes contemporaneas.


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