Entre arte e política

09dez08

por Daniel Toledo

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A 28ª edição da Bienal de São Paulo, encerrada no último sábado (06), colocou os pichadores – e, de certo modo, tudo o que se conhece como intervenção urbana – no centro de uma série de discussões relacionadas à arte contemporânea. Enquanto a curadoria do evento apontava a presença de um andar vazio como uma representação da “crise do sistema da arte”, um grupo de pichadores tratou de abandonar o espaço da cidade para ocupar exatamente o cubo branco que tradicionalmente abriga a Bienal.

Para discutir essas e outras questões, o Coletivo Culundria Armada realizou, na semana passada, o encontro Mesa Amorfa: Mídia Tática, sobre as diversas formas de interferir subjetivamente nos espaços da cidade. Contando com a presença de pichadores, grafiteiros, criadores de stickers, estudantes de artes e outros interessados, o encontro levantou uma série de questões que revelam a complexidade e a fragmentação dos discursos sobre as pichações e seus criadores.

Se a arte moderna fundou um campo específico de valores estéticos, a produção artística contemporânea caminha em outra direção. Interessa agora trabalhar na fronteira entre arte e vida, borrando os limites entre diversas esferas de valores: política, economia, religião, estética etc. Seria, no entanto, precipitado dizer que trata-se de um processo concluído: de um modo geral, há um longo caminho para que a produção artística contemporânea consiga recuperar, ante os olhos do público, os seus vínculos com a vida cotidiana e as outras esferas de valores.

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É interessante que justamente nesse contexto a intervenção urbana e seus defensores busquem ampliar seu campo de atuação na direção de museus e galerias. Em certa medida, pode tratar-se de um processo relacionado à fragilidade e à elasticidade das orientações que regem a produção artística contemporânea. Parece pertinente pensar se, por outro lado, a vinculação da pichação ao sistema de valores da arte pode reduzir sua força expressiva e, sobretudo, sua força crítica em relação a outras esferas – sobretudo política e econômica. Além disso, importa saber se a orientação anti-establishment e anti-institucional que compõe a essência dessas intervenções não deveria perpassar, também, algo de anti-arte. Ao longo da discussão surge ainda uma terceira inquietação: a intervenção urbana apenas reivindica o espaço da cidade ou quer dizer alguma coisa sobre ele, por meio de conteúdos claros e de um diálogo aberto com o público comum?

Enquanto alguns criadores tomam como referência o sistema de valores da arte, da estética, outros permanecem voltados à esfera política, levantando questões sobre os valores hegemônicos que ocupam, simbolicamente, as grandes cidades. Nesse sentido, um ponto bastante explorado durante a Mesa Amorfa corresponde aos diálogos que se estabelecem entre a intervenção urbana e a publicidade, mostrando sua habilidade de questionar os valores e os critérios que definem a ocupação simbólica da cidade. De forma mais ou menos sutil, a intervenção que se contrapõe à publicidade evidencia a força exercida pelo poder econômico sobre as paisagens da cidade, para buscar, em seguida, subvertê-las em lugares de política. Se a cidade é oficialmente organizada como um espaço de negociações econômicas, as intervenções urbanas buscam, na surdina, torná-la uma arena política, reestabelecendo, de modo mais ou menos intencional, a pólis grega e a vocação da cidade como arena de encontro entre diferentes idéias e valores.

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One Response to “Entre arte e política”

  1. Daniel,

    como você disse bem, a arte contemporânea ainda tem um longo caminho para alcançar de forma mais visível os vínculos com a vida cotidiana, se este for relemnete um de seus objetivos. Sinceramente, ainda tenho dúvida se esse é realmente o objetivo de muitos artistas. Muitos, como vc diz no texto, buscam algo mais imediato, como os museus e galerias. E depois disso, o que vem? Fragilidade e elasticidade: vantagens ou desvantagens?

    Há, sim, a intenção de reinvindicar o espaço e explorá-lo, utilizá-lo, inclusive para falar muitas coisas sobre ele: diálogos abertos com o público ou simplesmente provocativos: tanto faz. A pólis grega nunca deixou de existir, apenas foi esquecida num canto, ali na esquina.

    Ah! E valores estéticos e valores políticos não são indissociáveis, podem andar juntos dependendo da habilidade e da intenção do criador.


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