Base para unhas fracas

14nov08

por Mariana Lage

imagem

Realizada em junho deste ano no Rio de Janeiro, a “campanha” Base para Unhas Fracas, do artista carioca Alexandre Vogler, chega a Belo Horizonte com 25 lambe-lambes espalhados por pontos estratégicos e de grande circulação da cidade. O trabalho estabelece uma clara e irônica conotação de publicidade, ao habitar os mesmos espaços geralmente utilizados pela divulgação de shows e, mais recentemente, de campanhas políticas.

“A imagem, supostamente uma publicidade do esmalte que dá nome ao trabalho, enquadra as mãos de uma mulher ocultando suas partes íntimas. Em primeiro plano, as unhas muito bem pintadas da modelo desviam a atenção da vagina, retocada digitalmente, fornecendo o tom subliminar da imagem”, descreve Vogler.

A respeito da interferência urbana no Rio, onde permaneceu por menos de quatro dias, Alexandre explica que os efeitos foram diversos: “desde a empatia total até contornos reativos”. Apesar disso, o artista considera ter provocado resultados positivos, uma vez que levantou discussões a respeito dos limites e valores da publicidade no contexto público. Em texto para A Gentil Carioca e para Carminha Macedo, ele discute a inserção crescente de imagens-mensagens no espaço urbano e a conseqüente modificação de nossa percepção simbólica sobre a paisagem cotidiana. O artista também reflete sobre a imagem fetichizada da mulher e do corpo feminino usados em larga escala pelas mais diversas propagandas. Assim, expõe que sua intenção é estimular o pedestre a pensar sobre as artimanhas estéticas utilizadas pelo mercado da publicidade, muitas vezes de forma subliminar. “Base para unhas fracas” conta ainda com a exibição de um vídeo produzido pelo artista em parceria com o diretor de fotografia Lula Carvalho e a atriz Marcela Maria.

“A imagem contida, na verdade, trata de um conjunto de partes do corpo humano, alterados e reunidos digitalmente com a intenção de simular um conteúdo erótico, belicoso e, até mesmo, escandaloso. No entanto a associação natural que se faz não condiz com a natureza original da imagem. Trata-se de uma manipulação, realizada por design gráfico, que trabalhou para a obtenção desse resultado. Resultado que põe em prova os níveis de tolerância do pedestre, solicitando uma reação a esse e outros produtos que cooptaram a paisagem da cidade à revelia do poder público”.

Em uma cidade que recentemente censurou grafittis nos muros da Universidade Fumec é de se esperar com curiosidade as reações provocadas pelos lambe-lambes de Vogler. Para mais informações sobre a experiência carioca, leia a reportagem “As unhas vermelhas mais chamativas do Rio” publicada no Segundo Caderno, do Jornal O Globo.

Base para unhas fracas, de Alexandre Vogler
14 de novembro a 13 de dezembro,
das 10 às 19h (segunda a sexta) e 10 às 14h (sábado)
Galeria Carminha Macedo
Rua Bernardo Guimarães, 1200, Funcionários
Entrada Franca

Anúncios


3 Responses to “Base para unhas fracas”

  1. Mariana,

    Vi a cartaz e fiquei com uma dúvida na cabeça: o contéudo disso tá legal nas ruas, por onde passam crianças?

    Ocorre que em “nome de tudo o mais e qualquer coisa” não se pode discutir se a exibição convém ou não para crianças. E isso não é moralismo, é antes de tudo respeito à fase de desenvolvimento de uma criança. Porque a imagem que eu vi tem a ver com o universo de experiência que eu vivo. Mas por qual motivo uma criança de 06 anos deveria receber esta imagem?

    Lembro-me que um dia minha filha, então, com 05 anos, chegou em casa reclamando de uma dor de cabeça muito grande. E não havia meios de melhorar sua dor de cabeça. Até que ela abriu jogo: “Pai, tava na casa da vizinha brincando e aí a mãe da minha colega passou um filme pra gente muito esquisito…” Assim que ela acabou de por pra fora, falando, começou a vomitar imediatamente. E então, a dor de cabeça sumiu! A menina simplesmente não conseguiu assimilar o contéudo do filme exibido!

    É assim que eu vejo o cartaz exibido. Não dá pra dizer que não é uma vagina. E que não tem um conteúdo ambíguo e erótico que tem a ver com o conteúdo de adultos, com sua experiência de vida.

    Estou falando isso porque fui membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança, coordenei durante alguns anos uma comissão e discutimos muito assuntos desse tipo. De como a publicidade e a mercadologia (isso mesmo) erotiza as crianças antes da idade.

    Moralimos? Creio que não. Acho que tem espaços e espaços. E a arte não está acima de nada. É parte da vida, como qualquer outra coisa.

    Abraços

  2. 2 marianalage

    Garrocho,

    obrigada pelo comentário
    sabe que eu pensei nesse fato tbm? como seria a experiencia de uma criança? do lado do pré-vestibular onde trabalho tem um cartaz enorme de seis mulheres de costas, em cima do selim de suas bicicleta vestidas somente com uma calcinha fio dental (é uma propaganda). detalhe: o cartaz está afixado há meses em frente a uma lanchonete frequentada por estudantes de ensino fundamental, muito próxima a uma escola.
    foi entao que estabeleci essa relação: na verdade crianças de todas as idades, assim como adolescentes, adultos e idosos já vêem isso. como evitar? o trabalho do vogler mostra, provoca, critica, faz pensar.
    nem a arte nem a publicidade estão acima de qualquer coisa.
    concordo: há espaços e espaços… mas onde colocar o trabalho do vogler eu nao sei. contudo provocou uma coisa que certamente ele queria provocar: um pensamento metalinguístico ou metacrítico dos proprios meios e mensagens da publicidade.

  3. Acredito que o trabalho do Vogler pretende justamente questionar essa erotização sem limites que transborda na TV, no cinema, na publicidade etc. É um uma obra crítica, contextualizada, pontual. Não foi produzida em escala industrial, para ser consumida por grandes massas de pessoas, inclusive crianças, como vários outros produtos midiáticos. Pelo contrário, é direcionada a um público que pode tentar interpretar e entender ou simplesmente se chocar e a, partir do choque, parar para refletir. Para as crianças, a obra pode simplesmente passar despercebida.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: