Trilhas, performances e pássaros

04nov08

por Vanessa De Michelis (sobre Performance, recepção e documentação)

Primeiramente queria dizer que achei incrível elevar o trabalho do Virgílio finalmente de Pocket Show Dama Dorme à performance de Virgílio Andrade. Sempre disse a ele que era necessário dar esse passo. Logo! Os três parágrafos introdutórios do texto foram essenciais para entender com outros olhos a performance.

Quanto aos comentários sobre a relação da trilha com a performance, tenho algumas observações a fazer.

Talvez o Virgílio não tenha citado ou enfatizado o suficiente “a” característica de seu conceito que mais me inspirou a fazer essa parceria longínqua: “a distância”.

Ao receber a descrição da performance, o que me interessou mais como premissa para realizá-la foi a introspecção inicial do homem-pássaro. Nenhum outro fato justificaria que eu realizasse a trilha a seis mil quilômetros de distância, sem nem mesmo falar com Virgílio, exceto por dois ou três e-mails. Detalhe: aqui, não tenho acesso a computadores. Fui pulando de amigo a amigo, pegando emprestado, cada dia fazendo num computador diferente, instalando e desinstalando softwares em seus laptops.

Vou lhe descrever algumas coisas que passaram pela minha cabeça que acabaram por conceituar a linha e a mistura a ser seguida para a construção da trilha. O que significaria esse homem-pássaro estar quinze minutos pensativo parado? Estará ele-homem escutando sons jamais ouvidos e absorvendo essas sensações, performando uma resposta? Ou estará ele-pássaro recordando sons de migrações e jornadas imemoriais, talvez realizadas apenas por seus ancestrais?

Eu, mulher-Vanessa, estou fazendo ambas as jornadas e papéis: a do homem e a do pássaro. Entre eu e Virgílio, o som e a imagem, existe uma ponte que atravessa seis mil quilômetros de distância. Se este homem pássaro não saiu de Belo Horizonte, mas viajou seis mil quilômetros mentais para criar esse trabalho, eu viajei fisicamente essa distância e mais inúmeras rotas, noites, vidas e rituais ao longo de quatro meses, para gravar e coletar essas experiências sonoras que misturei e enviei virtualmente para uma performance em um lugar onde não estou, cheio de sons de lugares que todos que a ouviram nunca estiveram.

Vanessa escreve da África, onde passou quatro meses viajando, gravando e pesquisando sons e lugares, muitos dos quais integraram a trilha composta para a performance Onomato-Pay-Ka, de Virgílio Andrade.

Clique aqui para baixar a trilha sonora.

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