Performances, recepção e documentação

31out08

por Mariana Lage

Todos nós estamos cansados de ouvir que um dos aspectos essenciais das performances é sua efemeridade. Não que seja irreprodutível: trata-se antes de uma experiência que se limita ao tempo e ao espaço da fruição estética onde e quando a performance foi programada para acontecer e esvanecer. “Sem ensaios, sem repetição, sem fim previsto”, como professava Marina Abramovic, há algumas décadas atrás.

Segundo conceitua Renato Cohen, em Performance como Linguagem, “para caracterizar uma performance, algo precisa estar acontecendo naquele instante, naquele local. Nesse sentido, a exibição pura e simples de um vídeo, por exemplo, que foi pré-gravado, não caracteriza uma performance, a menos que este vídeo esteja contextualizado dentro de uma seqüência maior, funcionando como uma instalação, ou seja, sendo exibido concomitantemente com alguma atuação ao vivo”.

Junto à efemeridade, de mãos dadas encontra-se a atenção dada à experiência estética e estésica daquela ação naquele momento. Neste sentido, as formas de documentação de performances estão muito aquém da proposta inicial. Servem, como a própria expressão diz, apenas para registrar e reter para a memória futura mínimos aspectos envolvidos na performance. Registros sempre incompletos próprios à aproximação de um olhar reflexivo, teórico ou investigativo.


ONOMATO-PAY-KA

No último sábado, dia 25 de outubro, a Mini-Galeria de Belo Horizonte recebeu a performance-instalação Onomato-pay-ka de Virgílio Andrade, também conhecido pelo coletivo Duotonee.

Situada atrás de um arbusto, no quintal dos fundos da galeria, o que se viu foi um amontoado de máquinas fotográficas e câmeras digitais. Da performance, era possível receber algumas sensações, comprometidas é claro pela obstrução visual de um batalhão de mini-repórteres.

Apesar da barreira visual e estética, foi possível perceber uma performance que articulava magistralmente situações de absurdo, tensão e estranhamento, além de trabalhar muito bem a construção de cena, a evolução da ação no tempo e a trilha sonora – produzida por Vanessa De Michellis.

Um homem adentra vestido apenas com uma lingerie feminina. Ele senta-se em um banco próximo a uma placa “Homens Trabalhando”, coloca uma cabeça de pássaro e agarra duas cabaças. Enquanto a trilha sonora nos remete a outras paisagens sonoras, o homem pássaro parece absorto em si mesmo, numa posição quase meditativa. É um mantra? Um sadahna? Num ambiente em que tudo apela aos sentidos, o homem-pássaro permanece estático e em silêncio.

Concentrado, o pássaro começa seu pequeno ritual. Nessa situação, mantêm-se o clima de estranhamento e progressiva tensão. As batidas do cabaça aumentam, golpea-se o bico, os braços descansam tocando o chão. A tensão chega ao seu cume e o pássaro começa a bicar a si próprio. Masturba-se?

Na conversa de entrosamento entre as propostas visuais, cênicas e sonoras, Vanessa De Michellis descreve a parte final da trilha sonora: “Lentamente ela vai tomando conta como um ritual ancestral que prepara você, respirando, respirando para uma explosão. Essa parte é muito intensa e crescente, as pessoas estarão a flor da pele…Coloquei umas vozes de rituais ancestrais tribais cantando ao fundo em umas partes. Quero que você ouça e se entregue. Sinta os negros na África e os índios americanos te dominando e entrando no seu cérebro e no seu espírito. Sinta a freqüência se espalhando no seu corpo”.

Como proclamava Abramovic, “Sem ensaios, sem repetição, sem fim previsto”. Na performance Onomato-Pay-Ka, trata-se mesmo da imersão estética tanto do artista quando do público. Somos espectadores parceiros, testemunhas deste ritual que se constrói e toma lugar na frente do público, com o público. À parte as câmeras, o clima de imersão muito bem trabalhado pela trilha e pela ação performativa teria possibilitado uma maior entrega do público à uma participação ritualística.

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3 Responses to “Performances, recepção e documentação”

  1. se a performance é sem ensaios e só existe no instante, tudo o que estiver ao redor deve fazer parte dela. é um exercício de negatividade: não uma participação ritualística. o tempo circular não existe mais… o que temos são os fragmentos, que os performers não colam. a participação de mini-repórteres adiciona uma deliciosa ironia a tudo isso.

    parabéns pelo blog, ótimo espaço. bjo!

  2. 2 daniel toledo

    “Eu nunca tive uma câmera e quase nunca tiro fotografias. Lembro do tempo em que só os japoneses tiravam fotografia de tudo o tempo todo­ e nós achávamos engraçado. (…) os japoneses da equipe que rodava um documentário sobre a Sardenha tiravam fotos de todos os pratos que iam comer nos restaurantes. (…) acho chato quando se tira muita foto da gente nas praias, no carnaval, nas celebrações, porque parece que tudo perde o gosto. Não me vejo tirando foto do meu almoço. De fato, a interrupção do ritmo de uma situação pelos constantes arranjos para fotografar enche o saco. Há décadas que vejo coisas incríveis no carnaval da Bahia e me prometo levar uma câmera para registrar. Mas sempre deixo para o próximo ano pois não quero perder o carnaval. Fotografar ou filmar é como sair dali e olhar de fora.”

    Quem disse foi o Caetano e eu assino embaixo.


  1. 1 Sobre trilha, performance e pássaros « converse: arte expandida

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