Arte além da arte

20out08

por Mariana Lage

Diante dos inumeráveis discursos de fins do século XX vociferando a perda de parâmetros de julgamento e de qualificação de obras de arte, surge uma denominação guarda-chuva na contra mão, defendendo sobretudo não uma arte sem limites, mas uma arte além de seus limites.

Enquanto alguns teóricos vêem a página em branco de Mallarmé, o silêncio de Rimbaud, os ruídos de Cage e o filme sem imagens de Paik como uma perda de limites sem fim e, consequentemente, declínio da atividade artística, são os próprios artistas agora os teóricos a instituir um novo cânone da arte, ou antes, um anti-cânone: a arte além da arte. Uma arte expandida em direção à experimentação e em busca de afinidades mil com os mais diversos suportes e poéticas artísticas, além, vale dizer, da utilização dos meios não artísticos, até então a-artísticos, como tubos catódicos, fax, telefones, rádios, revistas em quadrinhos, caixas de sabão em pó e dejetos humanos.

É de se notar aqui duas tendências. Uma que visa reduzir os materiais a quase nada. São exemplos o filme sem filme, a projeção do foco de luz de Peter Weibel, a sessão de cinema sem filmes de Claes Oldenburg e as acumulações de poeira sobre a superfície da tela de Rauschenberg com suas White Paintings, ou ainda, da exposição sem obras nem objetos, o espaço vazio de Yves Klein.

De outro lado, as experimentações entre linguagens visando à ampliação dos formatos e dos espaços artísticos. Aqui, dão o tom o hibridismo, a multimidialidade e a transgressão de idéia de objeto e dos gêneros artísticos. É o caso das realizações de Paik com múltiplos monitores de televisão, o expanded cinema de Tjebbe van Tijen e as diversas obras presentes na Documental de Kassel de 1977.

Ambas vertentes se fiam no desligamento da atividade artística dos conhecimentos estéticos acumulativos e historicamente lineares. Em Estética Digital, Claudia Giannetti enumera uma série de mudanças introduzidas por essas produções que investigam a arte além da arte. Algumas dessas mudanças são: a ênfase nas idéias de site specificity e de intervenção, o protagonismo da noção de processo, a investigação da relação entre contexto, tempo e as partes componentes da obra, a potencialização do caráter plurissensorial das obras, a preocupação com o papel do receptor e a compreensão da obra como espaço social e público.

A noção de expansão, vale notar, se direciona para todas as tangentes que se relacionam com a arte, sejam elas o público, os espaços de recepção e de exposição ou os meios de produção, acesso e distribuição dessas obras. A imagem passa a se configurar em estruturas cada vez mais complexas. Imagens, símbolos e corpos se integram espacial e virtualmente em ambientes de produção que são simultaneamente os mesmos da recepção.

O programa de expansão do campo artístico pode ser remontado aos object trouvé de Braque e Picasso, aos readymades de Duchamp e as assemblages de Kurt Schwitters. A partir da década de 60, essa expansão toma a forma maior não por meio de um movimento ou manifesto, mas através de proposições comuns às mais variadas produções artísticas. Nos primeiros anos do século XXI, a discussões sobre uma arte expandida mantêm seu vigor e continuam necessárias. Adquirem a característica de uma preocupação que toma formas ainda mais variadas – por meio das junções das novas tecnologias numéricas -, além, é claro, de ampliar e formar o público receptor, conhecedor e ávido por novas experimentações.

No contexto belorizontino, podemos verificar, de fato, uma continuidade sistemática de diferentes ações no sentido de ampliar os espaços de exposição, promover maior participação do público e fomentar grupos, eventos e debates que circundam as experimentações intermídias e além mídias.

Anúncios


One Response to “Arte além da arte”

  1. 1 Paulo

    Acho que você esquece de colocar dentre esses artistas e movimentos expostos a vertente que pretende não só a arte para além da vida, como a propria superação e eliminação da arte.
    Movimentos como o “Greve das Artes”, o movimento situacionista, o No Ism… enfim “artistas”(que eu gosto de chamar de fazedores de objetos estéticos) que veem a arte como inimiga ou como um valor burguês e pejorativo.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: