Laboratório: Candalia

10out08

por Daniel Toledo e Mariana Lage

Candalia foi realizada na porta da Estação Central de Trem. A intervenção reuniu três personagens sensíveis, que gritavam, cada uma ao seu modo, pela falta de alguém – e nesse passo despertavam no público a falta que existe em cada um de nós. Vestidas de branco, com belas saias em farrapos, elas traziam alguns poucos objetos de cena – um guarda-chuva, uma gaiola, um saco de maçãs verdes, um lenço vermelho e um cordão de folhas brancas (seria um homem branco?).

A intervenção começou à surdina, à distância, com grande plasticidade: uma das personagens aos poucos se aproxima do público, trazendo nas mãos um guarda-chuva transparente e uma gaiola vazia. Ela estaria à procura de um certo passarinho (ou seria qualquer um?), procura-o na estação, mas também nas árvores. Espera por um passarinho que voluntariamente queira prender-se em sua gaiola. Paralelamente, dois músicos, à paisana, sentam-se nas escadas que levam ao saguão da estação. É interessante a opção por músicas em línguas estrangeiras, que mesmo aos ouvidos “poliglotas” suscitam uma apreensão mais sensorial e menos cerebral.

É na escada que está uma outra personagem. Ela ostenta um saco de maçãs verdes e uma contínua tensão no rosto. Crê estar em Paris, recita versos em francês e a cada momento assume o nome de uma personalidade feminina francesa: Marguerite, Camille, Joana, Edith etc. Também está à espera. Comprou algumas maçãs para Clov; é por ele que ela espera. A mulher oferece maçãs ao público, mas sempre se recusa a compartilhá-las, por mais que o público faça por merecer. É Charles quem lhe informa sobre a hora da chegada do trem – ou, num bom francês, do “train”. Ela canta, queria ser cantora de ópera e se interessa por saber se alguém ali tem o mesmo desejo.

É a vez da mulher que procura por um tal homem branco, ela surge pedindo referências aos integrantes do público. Quem deverá ser esse homem branco? Teria a mesma natureza do passarinho e daquele por quem espera a mulher das maçãs? Ela não oferece tantas informações quanto as outras, mas sabe-se que também está à espera do trem.

Mas o trem não chega, e enquanto isso muita coisa acontece. Um taxista deseja narrar as cenas e dar-lhes algum outro andamento, um outro taxista também deseja um abraço. “Sou seu príncipe”, ele diz, mas não convence. Ele, o taxista, insiste, não sai de cena. Em meio a isso, entra em cena uma outra integrante do público: ela dirige-se diretamente a mulher do guarda-chuva, pergunta sobre seu passarinho, parece estar preocupada. A moça do passarinho diz alguma coisa delicada, toma-a pelos braços, dá-lhe um abraço, as duas rodopiam no centro da arena espontaneamente formada pelo público. Certamente um dos momentos mais brilhantes do trabalho.

Do outro lado da rua, os dois músicos e a mulher que espera pelo homem branco tocam algumas canções e distribuem flores vermelhas às pessoas que esperam no ponto de ônibus. Voltando ao espaço onde se dá a maioria das ações, continuamos esperando. O trem que diariamente chega às 19h40 está atrasado e só deve dar sinal às 22h00. A longa espera das personagens contamina o público, que permanece no local.

Na cena final, as três personagens caminhariam lentamente, na direção oposta dos passageiros que chegam, em busca de remediar a falta que lhe fazem o passarinho, o Clov e o homem branco. Quem assistiu à intervenção na quarta-feira disse que a imagem é belíssima, que arrepia; mas o público da quinta-feira assistiu à intervenção sem o desfecho original – o que, decididamente, não foi pouco.

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