Laboratório: Proibido deitar

09out08

por Daniel Toledo e Mariana Lage

Realizada no Parque Municipal, a intervenção conduziu o público por diversos espaços do parque, por meio de uma imprevisível sequência de ações. Por alguns instantes não se sabe de onde vem a intervenção: o que parece estranho pode ser apenas uma figura do parque, o que parece corriqueiro pode fazer parte da obra. Logo na entrada, aos poucos se identificam os performers, alguns mais ocultos do que outros: uma mulher que alimenta os gatos enquanto espera alguém; uma outra, quase histérica, apegada a um chumaço de textos e regras; e uma terceira, que atravessa a pequena praça conduzindo a sua lixeira. É nessa lixeira que ela se deita e simbolicamente anuncia o início da intervenção. Em outros espaços da praça, há ainda dois homens: um senhor totalmente integrado à paisagem humana que compõe o parque e um outro, que sobre uma árvore procura integrar-se à paisagem natural.

Os performers se movimentam em ritmos diferentes e aos poucos o público se adapta ao jogo de ter que escolher a quem seguir, quando partir de cada espaço. Tentam entendê-los, dão ouvidos, esperam. Talvez percebam-se como agentes moradores do parque, como gente que se encontra ali, com sua solidão, sua meditação, sua conversa para qualquer hora. Estão com os gatos, com o vazio, com qualquer um. Em dado momento uma mulher vestida de amarelo aparece deitada sobre uma das grandes cabeças que compõem a chamada Praça dos Fundadores. Ela está sempre a deitar-se, em vários lugares – menos, é claro, sobre os bancos. Se não fosse a presença do público, quem sabe algum guarda a tiraria do topo do monumento?

O tempo passa e a mulher continua lá, até que surge um barulho. O tempo da intervenção não é o tempo da mulher de amarelo. O público é seduzido para outro ambiente, onde um homem toca bateria. A dona do chumaço de papéis e regras corre desorientada. Algum tempo depois, a mulher de amarelo compõe o quadro e estende uma toalha de piquenique. A mulher que alimentava os gatos traz uma garrafa de champagne; o homem que estava sobre a árvore contribui com um sanduíche a metro; o senhor que antes varria e trocava de roupa no parque, agora traz meia melancia. Talvez seja nesse espaço, nesse momento que aconteça o maior estranhamento entre os usuários desavisados do parque: a ruptura com a ordem corriqueira é evidente. Todos passam a olhar, alguns param, outros continuam sua caminhada. A mulher de amarelo esbarra acidentalmente numa espécie de maratonista local. O piquenique continua, e agora conta com a participação de alguns integrantes do público. A moça das regras passa por cima de todos, inclusive do o homem que tocava bateria. Ele declina e, novamente, os performers se dispersam.

No momento seguinte, a mulher de amarelo quer uma foto. Ela tem pouca prática, custa a comportar-se. Por fim comporta-se, mas o fotógrafo não consegue atendê-la: a foto sai em branco. “Quer dizer que não sou importante”, diz. Dispensa a foto e encaminha-se para um novo lugar, um mirante onde já estão alguns dos performers e de onde se vê alguns outros, com destaque para a mulher dos gatos, que agora alimenta os patos. Ao som de uma música tocada ao violão, a mulher de amarelo tenta sentar-se, mas escorre pelo banco. O tempo passa e resta ao público observar os performers de longe, observar o que eles observam, mais uma vez experimentar o parque.

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