Laboratório: Fábulas do Agora

08out08

por Daniel Toledo

Num espaço de trato cultural, mas essencialmente de consumo, cada performer parecia trazer uma falta. Havia o consumista desenfreado e inconseqüente; havia uma persona fragilizada, carente de qualquer tipo de afeto e capaz de revirar latas de lixo para encontrá-lo. Num primeiro momento, ela aparece assustada no andar superior. Sua beleza e delicadeza contrastam poeticamente com a aparência degradada, com a crueza do figurino e da maquiagem. Há ainda um outro homem, que parece sentir saudades de um mundo que não existe mais e, quiçá, nunca existiu. Ele dorme e, em seus sonhos, certamente não está o mundo em que vive. Finalmente, a mulher de vermelho, encarnação humana da carne que se vende, da pessoa que se oferece sem saber o que faz.

Ao longo da intervenção, que atravessou boa parte do Mercado Central, dois dos performers centralizaram a condução do público. Para tanto, apresentaram uma ampla gama de recursos, entre eles alguns elementos sonoros – uma gargalhada, um par de passarinhos de plástico, um pedido de socorro – que ao mesmo tempo forneciam ao público informações sobre o caminho e mantinham os personagens presentes, mesmo quando não estavam visíveis.

Em um dos momentos finais da intervenção, vê-se a mulher de vermelho. Ela está deitada sobre um pano vermelho. O batom aparece em vários pontos do rosto, não só na boca. Ela pinta suas unhas com a ajuda de uma integrante do público. De vermelho. Pinta também as unhas de um pé de porco, aliás, um pé de porca. A mulher de vermelho está na frente do açougue, de um varal de carnes penduradas. Para não ficar atrás, ela se deita e põe na boca uma maçã, em uma das imagens mais fortes da intervenção.

A obra ganhou o público ao explorar a faceta do entretenimento sem, contudo, deixar de lado a problematização de questões relativas ao espaço e à vida humana. O estabelecimento de diversas camadas de fruição foi, aliás, uma das grandes qualidades do trabalho. Diante de personagens aparentemente conhecidos, o público podia simplesmente acompanhar a imprevisível trajetória de cada performer, vivenciando o trabalho como uma obra de entretenimento, mas podia também experimentar a criação de significados complexos e de relações mais amplas entre os elementos de toda ordem, lançados na direção do público ao longo de toda a intervenção.

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