Territórios da Improvisação

11set08

por Mariana Lage

Nós, artistas e público, temos nos habituado pouco a pouco a obras que exploram e extrapolam – em maior ou menor grau – a idéia de obra inacabada, aberta e em processo.

É tempo de improvisação. E não só pela quantidade significativa de “espetáculos” desta estirpe em cartaz nos últimos três meses em Belo Horizonte – dentre eles, pode-se citar: “Kronos Material”, do Clube Ur=HOr; “Sobre Nós”, da Liga Profissional de Improvisação Teatral; o “Encontro de Improvisadores”, na sede da Quik Cia de Dança; além das próprias ações do Arte Expandida, Momentum e Improvisões. Nas próximas semanas, entre 19 e 28 de setembro, a cidade recebe ainda o Festival Internacional de Improvisação Teatral.

Fitando bem as manifestações artísticas atuais é possível perceber que performance, happening e composição instantânea são questões mais do que presentes, são talvez a vertente mais expressiva, mais conectada com nosso tempo – e, diriam alguns, a mais espinhosa e polêmica. Por quê? Solicitaríamos o parecer de um teórico da imagem que dissertaria sobre os limites (e a falta deles) entre realidade e ficção. Precisamos, diria o teórico, do ilusório e do poético, tanto quanto necessitamos hoje experienciar e estar no controle da percepção estética. A percepção flutua entre deixar-se ir, mergulhar no caráter ilusório da obra e emergir, saltar para fora da experimentação e perceber a obra por um outro olhar. Somos contempladores participativos. Nessa flutuação, nossa experiência estética torna-se tão aberta quanto a obra.

Antes de qualquer coisa, o que se privilegia é a dimensão do tempo presente e do espaço dado: aqui, o palco, diante de mim. Também a percepção de que a nossa necessidade insistente do “como se” da obra não se restringe a uma fábula ou a uma narrativa tradicional com início, meio e fim. Aliás, talvez a principal característica desta vertente seja pôr à mostra os mecanismos e as reentrâncias da composição artística.

Estamos, nós, os espectadores, na posição dúbia de ser contempladores e participantes cúmplices da produção de sentido. Estamos, nós, ali, testemunhas de uma obra que se constrói em público. Sem amarras, sem pretensões e, em especial, nas palavras de Dudude Hermann, “num exercício pleno de desapego”.

Somos um público-torcida – para lembrar outra expressão que brotou de um dos encontros do Momentum. Mas somos também, contraditoriamente, um público que desconfia: “Não houve ensaio?”, “Claro que há algo que foi ensaiado! Tem que haver!”. E nos bastidores, aqui e acolá uma pergunta insiste: “O que vocês combinaram?”.

Há sempre aqueles que querem “descobrir” um fio narrativo nas improvisações e performances. Há os que não acreditam existir ali algo em construção constante, sob riscos de buracos, silêncios, brancos. Há, é claro, alguns que percebem que em matéria de improvisação, os bailarinos, músicos e técnicos de luz e imagens testam os limites de suas poéticas, de seus caminhos costumeiros, suas memórias corporais, sonoras, imagéticas. Estes, público e artistas, entram em diálogo construtivo e colaborativo. Mas há sempre, de qualquer forma, um diálogo evidente entre o que se sabe e o que se descobre no momento do encontro. Na hora do “vamô vê”.

São formas outras de se trabalhar o corpo, o som, a imagem. São formas de ampliar e pôr a prova o próprio repertório – no sentido daquele que produz. Para quem recebe, é a forma de participar da composição artística e da construção de sentido. Para o artista, não se trata tão somente de expor um virtuosismo, mas a capacidade de enxergar de dentro e de fora a obra em construção. Dentro, como personagem. Fora, como artista em exercício de experimentação.

Na noite de ontem, a improvisação também subiu ao palco no encontro entre os músicos Milena Torres e Wilson Souza, no Estúdio B. Nomeada “Escambo Musical”, a proposta segue a linha das proposições dos projetos do Arte Expandida. Milena ouviu o trabalho de Wilson pela internet e fez o convite para receber o florianopolitano no palco, em Belo Horizonte. A semelhança com o Arte Expandida? Os músicos se conheceram – musical e pessoalmente – no momento da apresentação. Quem esteve presente pôde ver a beleza do diálogo e do encontro de dois violões, dois compositores e cantores autodidatas. Pôde testemunhar silêncios (poucos), cordas se arrebentando (duas), improvisações instantâneas e diálogos poéticos. Pôde assistir à capacidade de um músico preencher, com suas notas, sua sensibilidade e seu estilo a composição sonora do outro.

Surgem novas questões: quais são os limites da improvisação? Ou melhor, qual é o seu domínio? Está restrita a algum gênero artístico? Ou poderíamos traçar, desde o Free Jazz a Jackson Pollock, uma espécie de “pré-história” do improviso na composição artística? Se sim, estaríamos de fato lidando com uma poética que incorpora um dos paradigmas mais significativos da arte e do nosso tempo atual?

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