Paulo Rocha, Diogo Ribeiro, Tatu Guerra e Philippe Lobo

04set08

por Daniel Toledo

A segunda noite de Improvisões iniciou-se com a entrada de dois atores-bailarinos, acompanhados de alguns objetos de cena. Durante algum tempo os corpos mantiveram-se como foco do público, recebendo poucas interferências visuais e servindo como ponto de referência para os efeitos sonoros: cada movimento e cada choque era associado a um som. Aos poucos cada som que vinha trazia consigo a expectativa de que um movimento acontecesse, o que nem sempre se concretizava. Bom jogo.

Foi, aliás, uma apresentação rica em jogos: o jogo da sombra que esconde o seu dono, o jogo dos corpos que se chocam sem cessar e o jogo dos criadores que circulam entre as três linguagens, para citar alguns. A liberdade dos criadores permitiu também uma série de momentos bem humorados: além das inusitadas intervenções do criador de som, viu-se a patética troca de canais durante o horário eleitoral gratuito e a insensibilidade da atendente eletrônica de uma empresa de telefonia celular – a última realizada com o auxílio do perigoso microfone.

Houve ainda a chegada do homem nu, recebido com uma certa dose estranheza pelos atores-bailarinos. É interessante que o homem nu não tenha passado desapercebido pelos demais criadores, pois também é assim que grande parte do público o percebe. Esse personagem tão recorrente no campo da arte contemporânea teve, durante a apresentação, um tratamento bastante original – o qual poderia, inclusive, ter sido mais explorado.

A essa altura da noite, os vigorosos corpos do início da apresentação já haviam enfrentado alguns momentos de espera e paralização. Já haviam enfrentado também a presença corporal dos criadores de som e imagens, cada vez mais desenvoltos na arena inicialmente reservada para os atores-bailarinos. Enquanto as intervenções meramente sonoras eram substituídas por elementos ao mesmo tempo corporais, visuais e sonoros (que tal um punhado de moedas atirado no palco?), as projeções em vídeo estavam cada vez mais poderosas e diversificadas. Muito interessantes também os meio-manequins que povoavam o espaço e, vez ou outra, criavam belas imagens com ajuda das luzes que vinham de todos os lados.

O palco, aos poucos, tornou-se um lugar de todos e ninguém achou um disparate que, em determinado momento, o criador de som enrolasse os dois atores-bailarinos com um grande rolo de fita adesiva. Seria então natural que o criador de imagens entrasse em cena e ajudasse-o a arrastar os corpos amarrados até o fundo das coxias.

Seria um bom final, aparentemente originado de uma proposta bastante clara de um dos criadores. Mas os corpos voltaram. Quando o público entra no jogo, não há por quê interrompê-lo antes de explorar essa situação. Depois de alguns efeitos e outros artifícios intermídias, veio a hora de surgir um outro final: dessa vez o criador de som abriu o seu pacote de pipoca e desceu do palco em direção à saída do teatro. Seria então natural que os atores-bailarinos e o criador de imagens descessem do palco e acompanhassem-no até a porta. E foi o que aconteceu.

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2 Responses to “Paulo Rocha, Diogo Ribeiro, Tatu Guerra e Philippe Lobo”

  1. Daniel, obrigado pela sua crítica. É realmente bem interessante ver as leituras que se tiram de improvisações como essas do projeto (e terem “testemunhas” desse ato extremamente efêmero).
    Acho que você captou algo que foi essencial para nossa “apresentação”, a idéia de não sacralização do espaço cênico ou seja qualquer um poderia(e de preferencia DEVERIA) interferir no jogo dos outros, principalmente na primazia que os performadores da área do corpo costumam ter nesse tipo de apresentação.
    No mais é isso, obrigado!

    obs: você poderia me passar as fotos que você tirou?

  2. 2 Neda Leme

    Desejo parabenizar a todos pelo trabalho que veem fazendo.
    Philippe Lobo, é um ARTISTA talentoso e sensível em todas as áreas. Consegue passar o sentimento e a emoção a todos que o assistem.
    Votos de sucesso para todos do grupo,

    Neda Leme


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