A Caixa Preta

18jul08

por Mariana Lage

Em tempos de improvisações intermídia, é inevitável a discussão sobre as potencialidades de diferentes mídias e, inclusive, sobre suas capacidades de dialogarem entre si.

No ensaio Filosofia da caixa preta, o filósofo Vilém Flusser coloca em questão as imagens técnicas e os aparelhos que as realizam. A caixa preta do título qualifica a câmera fotográfica, protótipo dos meios técnicos de produção de imagens. Vemos o canal, o aparelho que produz imagens, mas lemos essas imagens como se fossem janelas objetivas e não-simbólicas do mundo real. “O observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus próprios olhos”.

A caixa é preta porque não vemos o processo codificador que se passa no interior do aparelho. O operador-fotógrafo parece não influenciar no elo entre a imagem e seu significado. Nas imagens tradicionais, pelo contrário, há o agente humano que exerce a codificação, se colocando entre as imagens e seu significado. “Este agente humano elabora símbolos “em sua cabeça”, transfere-os para a mão munida de pincel e, de lá, para a superfície da imagem”.
A crítica das imagens técnicas deve partir da abertura dessa caixa preta, a começar pelo entendimento de que a produção derivada de tais aparelhos é programada, limitada e pré-escrita. A potencialidade do programa é grande, mas limitada. Cabem aos fotógrafos e artistas das mídias técnicas agir em prol do esgotamento do programa, se esforçando por descobrir potencialidades até então ignoradas.

“No confronto com determinada fotografia, eis o que o crítico deve perguntar: até que ponto conseguiu o fotógrafo apropriar-se da intenção do aparelho e submetê-la à sua própria? Que métodos utilizou: astúcia, violência, truques? Até que ponto conseguiu o aparelho apropriar-se da intenção do fotógrafo e desviá-la para os propósitos nele programados? Responder a tais perguntas é ter os critérios para julgá-la. As melhores fotografias seriam aquelas que evidenciam a vitória da intenção do fotógrafo sobre o aparelho: a vitória do homem sobre o aparelho”.

Descobrir a caixa preta é obrigar o aparelho a revelar suas potencialidades. Esbranquiçar a caixa preta é adentrar em seu funcionamento interno – numa espécie de engenharia reversa, desconstruí-la para concretizar outras, diferentes e possíveis virtualidades do aparelho.

Um análogo desta atitude aparece quando fotógrafos e artistas das imagens técnicas exploram as regiões da imagem ainda não realizadas, quando produzem ou improvisam com esses meios numa composição ainda sem nome, entre meios. Quando tiram do aparelho imagens improváveis ou quando colocam o aparelho em situações para as quais ele não foi programado.

Podemos, portanto, dizer que o Improvisões: improvisações intermídia aparece como oportunidade para testar, explorar e visualizar a abertura das caixas pretas de diversas mídias.

Segundo Flusser, “a pretidão da caixa é seu desafio”.
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