Site Specific Art

14jul08

por Daniel Toledo

O que vem a ser arte? Em que condições e lugares podem ocorrer experiências estéticas? Quem pode fazer arte e que funções pode desempenhar na criação? Se essas perguntas são pertinentes para as artes cênicas, também merecem atenção quando se trata de artes plásticas. Para explorar esse tema, vale a pena rever alguns capítulos da história recente da arte pública, aqui entendida como obra de artes plásticas instalada em um espaço público.

Década de 60. A arte é empurrada para fora dos museus e galerias de arte, para a superção das condições de isolamento do cubo branco ideal e a instauração plena nos espaços públicos das cidades contemporâneas. Superando o ecletismo de monumentos a heróis políticos, figuras religiosas, datas históricas e símbolos de poder, as obras de arte introduzem na cidade novas mensagens e novas linguagens. Trata-se de um novo conceito de escultura, que se diferencia dos monumentos tradicionais ao abrir mão da própria idéia de monumento, de objeto comemorativo e ordenador do espaço. O modernismo introduz o arte pública como abstração, funcionalmente sem lugar e extremamente auto-referencial.

Anos 70. Surge a nocão de site specificity, por meio da criação de obras em diálogo com sua vizinhança, seu contexto de instalação. Orientadas por esse conceito, algumas obras de arte pública passam a ser desenvolvidas a partir de características topográficas e traços culturais locais, envolvendo conhecimentos anteriores sobre o espaço que recebe a intervenção – temporária ou permanentemente – e considerando os diferentes interesses que atuam sobre tal espaço. O objeto/escultura agora considera o local, o ambiente, as pessoas que ocupam os espaços naturais e construídos, dialogando com a arquitetura e a natureza, em seus respectivos contextos. A obra constrói-se a partir desse diálogo, integra-se ao entorno e não pode ser transportada para outro lugar.

Destacam-se, a partir desse momento, intervenções que passam a funcionar como enigmas, provocações ou reflexões sobre a vida em geral ou sobre a vida na cidade em particular. Obras que se posicionam como crítica à amnésia cultural e à banalidade do cotidiano – como a exposição Places with a past, realizada em 1991 na cidade de Charleston (EUA), em que diversos artistas internacionais foram convidados a criar instalações que remetessem a aspectos pouco conhecidos da história da cidade.

No Brasil, ainda são raras e pontuais as experiências de site specific art. Há, contudo, eventos significativos voltados à instalação temporária de obras de arte pública em diálogo com o contexto social. O grupo Arte/Cidade, coordenado por Nelson Brissac Peixoto, foi lançado em 1994, numa parceria com a Secretaria do Estado de Cultura de São Paulo. Articulando equipes multidisciplinares na escolha dos locais, discussão teórica e prática, busca de parceiros e patrocinadores e considerando a participação do público no evento, o projeto teve como objetivo “intensificar a percepção dos espaços, trazendo à tona significados ocultos ou esquecidos, apontar para novas possibilidades de usos, redimensionar sua organização estrutural, sugerir novas e inusitadas configurações”. Atualmente o grupo trabalha de forma independente, articulando parcerias com instituições públicas e privadas de acordo com as características de cada projeto.

Outra importante iniciativa em território brasileiro é a Fundação Bienal do Mercosul, lançada em Porto Alegre, em 1997. Desde então a instituição vem realizando exposições regulares que trazem obras de arte contemporânea para os espaços de convivência, transformando locais em paródias, metáforas e hipérboles que deslocam para lugares alternativos o olhar do transeunte acostumado.

Especialmente interessante é o caso da Escadaria Selarón, localizada no Rio de Janeiro. A obra teve origem a partir da iniciativa de um morador da região, conquistou apoio de moradores e freqüentadores da região e, posteriormente, foi reconhecida pela prefeitura da cidade. Situada entre os bairros cariocas Lapa e Santa Tereza, a escadaria foi iniciada em 1990 em meio ao contexto de ocupação cultural por baixo que devolveu à região da Lapa a sua vocação cultural. Atualmente é um importante ponto turístico local, sendo tombada como patrimônio cultural da cidade em 2005. Além disso, é ponto de concentração de moradores e visitantes da região, principalmente durante os fins de semana.

São muitos os exemplos de intervenções artísticas urbanas, ainda bastante concentradas em cidades européias e norte-americanas. A importância que cada intervenção adquire para os seus espectadores diários geralmente está condicionada à capacidade de interpretação e tradução do artista em relação aos mais diversos aspectos e condições contextuais.

No entanto, a instalação de uma obra de arte pública envolve uma série de variáveis que ultrapassam questões relativas à capacidade interpretativa do artista. A arte pública deve, por exemplo, reunir valor de uso, possibilitar associações sígnicas, conciliar as expectativas do público e as preocupações do artista. Em suma: o artista deve preocupar-se com a sensibilidade das pessoas que vão conviver diariamente com a obra. Uma das experiências mais discutidas nesse sentido é a trajetória do Tilted Arc, obra realizada pelo artista Richard Serra e instalada em 1981 na Federal Plaza de Nova York. Depois de protestos dos frequentadores e uma longa batalha judicial que envolveu o artista, o público e os órgãos responsáveis pela instalação, a obra foi removida em 1989. Segundo os frequentadores, o lugar ficava melhor sem ela.

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4 Responses to “Site Specific Art”

  1. 1 Hélio Amosse

    Este tema (site-specific) e todas estas perguntas tbem foram levantadas em arquitectura, por volta do mesmo periodo (anos 60-70). O mais interessante q ocorreu foi uma busca d complementaridade entre a arte e a arquitectura q alias, desde sempre existiu e passou a criar obras artisticas e arquitectonicas para serem sentidas e experimentadas pelas pessoas, e näo uns mero artefactos para serem observados ainda mais num conceito excluidor e dscriminador d elites culturais.

    • 2 Cláudia Lallo

      O que me parece é que vai além de obra para ser sentida e experimentada em um espaço, as instalações são bem eficientes nisso. No site specific esta relação expande para o ambiente propriamente dito, a reflexão pode ser inclusive coletiva.

  2. 3 dudu

    gostei

  3. 4 dudu

    achei tudo bem interesçante


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