Experiências estéticas e mundos cotidianos

30set09

por Mariana Lage

salada

Uma dentre tantas das vertentes poéticas contemporâneas focaliza a possibilidade de proporcionar experiências estéticas a partir de objetos banais ou situações corriqueiras. Em meados da década de 50, o grupo Fluxus foi pioneiro em elevar à condição artística ações cotidianas tais como preparar uma salada, acender e apagar a luz, espirrar, abrir o olho, riscar um fósforo. Coetaneamente, John Cage trazia para o “universo da música” sons e ruídos até então considerados a-musicais. Naquela época havia uma preocupação recorrente entre os artistas de romper com as barreiras entre a chamada Arte Erudita e o mundo da experiência comum. Para George Maciunas tratava-se justamente de transformar a arte em uma forma de experimentar qualquer coisa: a chuva, o burburinho de uma multidão, um espirro, o vôo de uma borboleta, um almoço, um jantar.

Ao fim da primeira década do século XXI, oferecer experiências estéticas através de proposições artísticas aparentemente ordinárias continua sendo uma questão importante, e intrigante. Nos últimos dois meses, Belo Horizonte recebeu diversos eventos na área da performance art. Uma das discussões presentes nos corredores e mesas de bares próximos aos eventos circundou justamente o problema entre a banalidade de nossas experiências comuns e a banalidade de certas experiências proporcionadas por algumas performances.

Sem dúvida há espaço e respaldo para essas práticas artísticas, uma vez que a percepção poética/estética dos dias de hoje, se não é apropriada pelas mensagens publicitárias, é, por outro lado, sufocada (quem sabe até coagida) pela quantidade massificantes de imperativos do tipo “faça”, “seja”, “produza”, “compre”. Proporcionar então um espaço de afloramento dessas percepções poéticas e reflexões estéticas talvez possa ser adjetivado como um dos – outrora basilares, hoje em dia demodés – papéis sociais da arte.

Contudo, o ponto de interrogação insiste em se manter presente na fruição de grande parte da produção artística. A dificuldade da arte contemporânea continua sendo, assim, a necessidade de delimitar sua identidade: é ou não é arte e porque. A questão dos atributos plásticos, estéticos ou poéticos continua aparecendo no horizonte de fruição e qualificação dessa produção artística (há pelo menos quatro décadas). Continuam sendo pertinentes tanto para artistas e críticos, quanto sobretudo para o público. Porque – e de que forma, a partir de quais prerrogativas – acender um fósforo é uma obra de arte? Porque andar em círculos ou oferecer um banquete é uma obra de arte? Sobretudo para público pouco versado nas discussões estéticas e debates téoricos/filosóficos da arte, a questão se torna fundamental. Fundamental por causa de uma insistente necessidade comum a (quase) todos de separar arte e vida comum.

cinco-sentidos

Discutir a qualidade dos trabalhos e suas capacidades de proporcionar experiências originais será sempre uma tarefa inerente a própria esfera artística. A respeito de Fluxus, o filósofo Arthur Danto disse “que a questão não é quais são obras de arte, mas qual é a nossa percepção de algo se o vemos como arte”.

Reiterando, é sobretudo o tipo de experiência que temos com essas obras que as qualificam como sendo “obras de arte”, que lhe dão respaldo ou status artístico. Contudo, como medir, como certificar-se da qualidade ou da relevância das experiências proporcionadas? Ou tratar-se-ia hoje em dia justamente de uma “não medida”, não certificação – seguindo a proposta de Fluxus e  Cage de uma completa dissolução da arte nos mundos cotidianos?

Em “Neodadá in Music, Theater, Poetry and Art”, George Maciunas propõe que “se o homem pudesse ter uma experiência de mundo, o mundo concreto que o cerca, da mesma maneira que tem a experiência da arte, não haveria necessidade de arte, artistas e de elementos igualmente ‘não-produtivos’”. Enquanto John Cage na mesma época defendia uma música em que não mais haveria distinção entre compositor, maestro, músico e público. “É uma música feita por todos”. Para finalizar, vale lembrar que para Fluxus, a arte adquire “qualidades impessoais de um acontecimento simplesmente natural”.

Talvez tenhamos chegado a concretização dessas proposições-manifesto.

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12 Responses to “Experiências estéticas e mundos cotidianos”

  1. Velho (nem tão) velho tema, não? Ser ou não ser, etc.

    Há algo de nem tão novo, nem tão podre, no reino da arte, creio eu. Os limites (da banalidade e da grandiosidade, do pueril e do profundo, do quixotesco e do sublime…) passaram a atormentar o homem assim que ele prescindiu, ou foi expulso, do mundo dos nomes… Se alguma coisa sobra, é a existência, talvez. Uma existência cada vez mais pobre, ou cada vez mais rica?

    Ou uma existência, enfim, liberta da necessidade da grandeza e de pobreza, de grandiloquência e de humilhações?

    Menos presa, talvez, à histeria do sentido (bom ou ruim). Mas nem assim mais livre…

  2. 2 marianalage

    Respondendo às minhas próprias perguntas, Paulo Sérgio Duarte, lido hoje, publicado há alguns meses na Continnum, numero 19, revista do Itaú Cultural:

    “Toda avaliação estética foi e vai ser um juízo de valor. Se assim é, ela será sempre de natureza subjetiva. Não existem critérios objetivos, nem houve, nem nunca vai haver, para avaliar uma obra de arte, seja ela qual for. O que existem são consensos, que são estabelecidos por uma coletividade que está de acordo
    com certos valores. Um exemplo: a Nona [sinfonia] de Beethoven. Pode-se tocar essa música no Japão, na África do Sul, no Marrocos, nos Estados Unidos ou
    no Brasil que sempre vai haver um consenso. Ou seja: grande quantidade de pessoas estará de acordo que aquela música tem valor, agrada, é importante. Antes de escutar aquilo, a pessoa era uma. E, depois de escutar, ela virou outra, percebendo ou não essa mudança. O critério de avaliação é dado, também, pela
    experiência da arte. Não há outra forma de acesso à arte que não seja fluindo a sua experiência. [...] Com base na experiência da
    arte se chega aos consensos” (p. 21).

    Simples, não?

  3. Não podemos esquecer que toda arte precisa ser legitimada para ter tal nome/status e como tal é importante pensar o QUEM e o AONDE de cada obra (devemos lembrar do já cansado exemplo dos readymades duchampianos, do coco enlatado de Manzoni, é imprescindível que sejam apresentados dentro de um museu).
    Hoje podemos ver como as obras do Dadá e do próprio Fluxus foram assimilados pelo mercado de arte, ou seja, o que era revolucionário e objeto de inquietação torna-se canone e não precisa mais ser questionado. Inclusive é engraçado e de certa forma instigante que objetos do periodo heróico do Fluxus sejam exibidos em museus, pior que elas valham tanto.
    Ainda acho que qualquer objeto dentro de uma galeria é um objeto de arte (por mais que Dickei e Danto tenham uma teoria extremamente interessante sobre como o produto artistico é um produto destinado a um meio muito especifico e segmentado de consumidores), daria um exemplo que assim como em um altar qualquer objeto torna-se sagrado, dentro de um lugar especifio (museu, teatro, cinema) qualquer artefato será visto como arte por pior que seja. Há uma semelhança cruel, todos os dois precisam crença, um mistica e outro estética… tsc,tsc devo falar que cheira a podre todas as velhas concepções de estética que buscam uma essência a arte.

    • 4 marianalage

      “o que era revolucionário e objeto de inquietação torna-se canone e não precisa mais ser questionado”, será que não? do que se trata então nossa produção artística atual, sem pensar é claro do campo do pensamento e da produção crítica (pense em quem quiser, de duve, krauss, etc etc).

      acho que o interessante desta discussao na verdade nao é pensar o conceito de arte e de museu, pelo menos nao nesse ambito. acredito – e isso é, é claro, minha forma ver – acredito que o mais interessante é justamente a ampliação dos dominios da experiência estética. discutir experiencia estética, nao conceito de arte, me parece mais rico, mais frutifero principalmente para os fruidores.

      me diga, fiquei na dúvida, a experiência estética se enquadraria, na sua visão, entre “as velhas concepções da estética que buscam uma essencia da arte”?

      “qualquer artefato será visto como arte por pior que seja” – essa é inclusive a proposta do conjunto vazio, se nao estou enganada. e ai? para onde podemos apontar novas discussoes? ou vamos continuar mordendo o próprio rabo? alias, essa frase nao quer dizer (ou alias ja foi bastante usada para dizer) justamente do tal famoso, batido, embora importante, ato duchampiano?

      • Na verdade, claro que eles esses canônes precisam ser revisitados, mas eu realmente acho que isso não sera feito pois não interessa aos “artistas”, “estetas” e demais intelligentsias… simplesmente porque é justamente por onde a Arte e consequentemente o mercado caminham, toda tentativa de antiarte vira vanguarda. Renova, areja, cria novas tendências.
        Aí que eu faria uma distinção entre Arte e Experiência/Artefato Estético , consigo ver claramente que a primeira está ligada a um processo de legitimação e fortemente atrelado a um mercado. Mas isso, claro, sou tentando manipular os termos, só acho que há inumeras pessoas realizando eventos estéticos sem serem propriamente cooptadas e/ou interessados em um mercado de arte. Basta pensar na maioria de intervenções urbanas que acontecem e que não tem intenção de serem comercializadas.
        Não faço aqui um juizo de valor… apesar de achar que está bem claro um certo posicionamento, só acho realmente interessante como por exemplo 4’33” do Cage ao ser feita novamente é recebida com tanto entusiamo e seriedade, ou como o Fluxus virou uma parodia de si mesmo quando aceitou o jogo Artista/Mercado… o que era algo potente vira pastiche só para ser consumido. Ahaha viu, puro juizo de valor!
        O [conjunto vazio] é um caso menos pretensioso, fingimos que estamos ligado a uma certa tradição de antiarte quando na verdade na primeira oportunidade queremos é ganhar dinheiro. Nós não mordemos o próprio rabo, estamos atolados nele, não há possibilidade nenhuma de sair dessa enrascada. O que resta é tentar manipular as regras e rezar para te levarem a sério! Você consegue levar arte a sério quando vê Duchamp no museu?

      • 6 marianalage

        acredito que é preciso fazer algumas distinções – por mais que, como voce disse, estejamos fazendo juízo de valor e manipulando conceitos. Existem artistas e existe mercado de arte, assim como existem artistas preocupados somente em adentrar na lógica mercadológica e garantir o seu e aqueles outros mais preocupados com as questões estéticas e históricas. Claro que não podemos resgatar a intenção real de Cage, Duchamp e Maciunas – para nós tudo é história ou estória, se preferir. De qualquer forma, desconfio que 4’33″, A fonte ou Prepare uma Salada não foram feitas e pensadas para o mercado, apesar de o ‘mercado’ a tudo cooptar.
        Portanto, nao seria necessário de novo fazer uma distinção entre os termos dessa discussão? Ou voce quer dizer que é mercado quem dita o que é arte e dita, inclusive, nossa forma de percebê-la? Se assim for, penso entao que somos todos um bando de macacos de cérebros ocos, sem nenhuma intuição do que seja arte ou percepção estética

      • Mas aí que se encontra o problema, é justamente o mercado de arte que atesta se alguém é artista ou não é, você preparar uma salada em sua casa não é arte, esses vendedores ambulantes que vendem “cortadores de legumes” no meio da rua não é arte, só se vira Arte realmente quando cooptado por essa lógica de espaços institucionalizados, de uma rede de legitimação, quando virar produto.
        Claro, como você disse há pessoas que não estão interessadas em adentrar nessa lógica, mas aos que querem fazer parte da “cultura séria”, como diria Henry Flynt do próprio Fluxus, serem chamado de Artistas, adquirir um status quo privilegiado terão que fazer parte dessa estrutura.
        Acho que é importante distinguir os termos só não sei se tenho a capacidade para isso, mas eu acho sim que é o mercado e esse “rede de legitimação” (basicamente curadores, críticos de arte, colecionadores, estetas e outros Artistas) que ditam o que é arte, o que vai ser exposto, o que será atestado como uma alta cultura, o que é descartável, o que adentrará a história, o que será mostrado em sala de aula, em livros, em teses de doutorado… repito mais uma vez, falo isso sobre o conceito de arte.
        Mas acredito mesmo que somos “macacos de um deus frio” (me deu vontade plagiar o Marx) e sem nenhuma intuição para o que seja arte pois não temos controle e nem cacife para atestar o que é ou não é… alias eu não, mas você sim Mariana, é jornalista e esteta, aproveite seu poder.
        Me lembrei de uma frase do Stewart Home que gosto muito e que exemplifica um pouco meu posicionamento “(…) salvar a estética do gueto da arte e colocá-la no centro da vida”, é isso que penso, é possivel manipular, experimentar, “criar” artefatos/experiências estéticas para além da Arte e da cultura séria.

      • 8 marianalage

        de repente percebi que voce está querendo defender o mesmo ponto de vista que quis apontar no texto origem de toda essa conversa a partir dos exemplos Fluxus. e acho que essa frase resume meu humilde texto bem: “Me lembrei de uma frase do Stewart Home que gosto muito e que exemplifica um pouco meu posicionamento “(…) salvar a estética do gueto da arte e colocá-la no centro da vida”, é isso que penso, é possivel manipular, experimentar, “criar” artefatos/experiências estéticas para além da Arte e da cultura séria.”

        só fazendo uma correção, posso ser séria, jornalista e ter pretensão de crítica, mas nao tenho poder algum, nem acredito que faço parte da tal “Instituição da Arte”, como você está defendendo.

        no mais, fico com Kant
        au revoir

      • 9 marianalage

        achei que cabe nessa discussão, trecho de um texto de Rubens Pileggi Sá, em 14 de setembro deste ano.

        “O que está em jogo, 20 anos depois que o neoliberalismo transformou o mercado em Deus, não é uma questão de ser contra ou a favor das mudanças, de aceitar ou não a tecnologia, mas da capacidade de a arte contemporânea dialogar, de igual para igual, com outras áreas, os espaços da cidade, as redes, os fluxos, as objetividades e subjetividades colocadas em ação. E, nesse sentido, não podemos esperar que o Estado ou o mercado venham até a nós dizer o que e como devemos “embelezar” a cidade, as praças, os parques, as ruas, os museus, as galerias. Temos que nos tornar agentes desse processo, impedir que a sanha imobiliarista, capitalista, devore nossa memória, nossa história, nossa cultura e nossa arte. Que as camadas sejam reveladas e não destruídas, por outras, e depois outras, no eterno retorno do novo, da novidade, ou, quando muito, ao bel prazer das (dês)políticas públicas.

        Pode ser engraçadinho entrar e sair pelos buracos dos objetos que Vito Acconci vem realizando, agora que ele não tem mais nada a reclamar. E embora tudo aquilo que ele foi e fez tenha sido altamente significativo, o fato é que o que ele realiza agora só é orgânico em relação à forma, sem nenhuma preocupação a mais comigo que queria tanto poder amá-lo, ainda”.

        artigo na íntegra no link:
        http://www.canalcontemporaneo.art.br/arteemcirculacao/archives/002495.html

  4. Mas aí que se encontra o problema, é justamente o mercado de arte que atesta se alguém é artista ou não é, você preparar uma salada em sua casa não é arte, esses vendedores ambulantes que vendem “cortadores de legumes” no meio da rua não é arte, só se vira Arte realmente quando cooptado por essa lógica de espaços institucionalizados, de uma rede de legitimação, quando virar produto.
    Claro, como você disse há pessoas que não estão interessadas em adentrar nessa lógica, mas aos que querem fazer parte da “cultura séria”, como diria Henry Flynt do próprio Fluxus, serem chamado de Artistas, adquirir um status quo privilegiado terão que fazer parte dessa estrutura.
    Acho que é importante distinguir os termos só não sei se tenho a capacidade para isso, mas eu acho sim que é o mercado e esse “rede de legitimação” (basicamente curadores, críticos de arte, colecionadores, estetas e outros Artistas) que ditam o que é arte, o que vai ser exposto, o que será atestado como uma alta cultura, o que é descartável, o que adentrará a história, o que será mostrado em sala de aula, em livros, em teses de doutorado… repito mais uma vez, falo isso sobre o conceito de arte.
    Mas acredito mesmo que somos “macacos de um deus frio” (me deu vontade plagiar marx) e sem nenhuma intuição para o que seja arte pois não temos controle e nem cacife para atestar o que é ou não é… alias eu não, mas você sim Mariana, é jornalista e esteta, aproveite seu poder.
    Me lembrei de uma frase do Stewart Home que gosto muito e que exemplifica um pouco meu posicionamento “(…) salvar a estética do gueto da arte e colocá-la no centro da vida”, é isso que penso, é possivel manipular, experimentar, “criar” artefatos/experiências estéticas para além da Arte e da cultura séria.

  5. Hola
    Me fascinó la forma en que relata sobre el tema.
    Continuaré visitando esta web


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