Sobreabismos

07ago09

por Mariana Lage

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Numa época em que o nomadismo entrou em voga, ainda que mais especialmente numa dimensão virtual, Cinthia Mendonça revoga para si uma permanência num espaço onde ela mesma não permanece. Para afixar e afirmar a qualquer custo uma relação mais intensa com uma cidade que, ela sabe, será temporária e pouco afetiva, a performer dispõe seu corpo num tempo dilatado no espaço elegido: “um não-lugar”, como gosta de referir, um local onde as relações são, por excelência, vacilantes, superficiais, transitórias.

É no lugar da impermanência do fluxo cotidiano da vida urbana que a relação de contato e o desejo de fixação se colocam. Com seu corpo, a estrangeira diz: “Estou aqui! Me perceba!”. E remetendo a uma temática cara à filosofia, enfatiza: “Só existo – nesta cidade de passagem – na medida em que o outro me percebe”. É o outro que permite minha existência; é ele quem dá o volume e a densidade a este determinado eu. E diante de um eu em constante movimento, é preciso destacar essa existência neste tempo e neste espaço. Sou Cinthia, estou em Olinda. Sou Cinthia, estou no Rio de Janeiro. Sou Cinthia, estou em Belo Horizonte.

Realizada pela primeira vez na escadaria da Rua André Cavalcanti, no bairro carioca de Santa Tereza, Sobreabismos será apresentado hoje, sexta-feira, no Viaduto Santa Tereza, dentro da programação do Espaço Aberto da 2ª edição da Manifestação Internacional da Performance. Entre 13h e 17h30, ou até o sol se pôr, Cinthia atravessa repetidas vezes o Viaduto, utilizando pigmento ocre dourado a base de água. O pigmento que marca, mas dilui posteriormente sua (im)permanência, é o mesmo que revela ainda sua relação com a terra, seu desejo de deitar raízes. Na impossibilidade de realizar o desejo de “permanecer a vida toda num só lugar”, é a obstinação pela repetição e o desejo de tornar intensa uma relação transitória que dão moção à sua caminhada. “E ao caminhar”, ressalta a artista, “eu revelo o espaço na mesma medida em que revelo a mim mesma”.

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Na ambiguidade de uma ação êfemera, mas distendida no tempo e com vistas ao perene, Sobreabismos destaca os abismos sociais e afetivos da convivência urbana, além de ressaltar o caráter intransponível entre a solidão de uma ação individual determinada e a coletividade flutuante dos espaços urbanos. E é por isso que Cinthia elege espaços como pontes, escadarias, elevados, viadutos: lugares que sirvam “de ligamento entre pontos da cidade e locais distintos, que possam sugerir o trânsito de pessoas e ao mesmo tempo conter a idéia de suspensão”. Na ânsia de ficar e significar, é possível perceber ainda uma outra contradição. Entre permanecer e relacionar, na tentativa de aparecer para esta cidade que agora habita, a performer transita por um espaço (e um tempo) suspenso. Qual a qualidade de uma relação originada nessas condições? Sua existência se dá em relação tão-somente com o espaço elegido ou com os habitantes da cidade? Qual o tipo de envolvimento aqui desenvolvido?

“Durante a ação posso conversar com as pessoas que se aproximam, posso aceitar e lhes pedir ou lhes oferecer ajuda para fazer a travessia, posso responder as suas perguntas, mas eu não posso parar. Os corpos que, assim como eu, executam a mesma corriqueira ação, caminham, enquanto com minha ação exaustiva revelo a poesia do movimento realizado por eles próprios e também os abismos entre as relações”, explica. “Para onde te levam as pontes? Sem elas: abismos. Queda. Suspenso o eu no ar”.

Clique aqui para assistir ao registro da performance realizada no Rio de Janeiro.

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One Response to “Sobreabismos”


  1. 1 Sobreabismos // Onabyss (Belo Horizonte) | Mobilidade, Motilidade e Projéteis // Mobile, Motility and Projectiles

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