The murder of crows
por Mariana Lage
Enquanto a crítica não representar uma arte ao lado das outras artes, ela será sempre mesquinha, unilateral, injusta e desprovida de dignidade
Rainer Maria Rilke
Com uma citação retirada de Diário de Florença do poeta francês, este blog rompe com mais de um ano de ausência e silêncio com um texto mais poético do que crítico. Reflexivo, mas de forma alguma preso a preocupações teóricas. Texto preocupado exclusivamente com aquilo que dá vida às obras e a trazem para um campo de concretização de sentido.
A seguir, um relato a respeito de uma experiência com a obra The Murder of Crows (2008), de Janet Cardiff & George Bures Miller, inspirado na gravura de Goya, O Sonho da Razão Produz Monstros.
Entro num galpão extenso, com um arranjo de cadeiras em círculos e uma mesa ao centro. As paredes brancas acentuam a extensão do espaço. Sentada num banco em meio a cadeiras vagas e caixas de sons, fecho os olhos e sou transportada para um espaço intangível, que existe e dura na medida em que me entrego e permaneço neste espaço impalpável que o som me conduz.
A obra não me exige a entrega, mas eu a pressuponho, pois só assim, neste ato de desapego de expectativas, desejos e significados, posso então sentir os passos tão concretos de alguém que se aproxima assim como posso também sentir o aveludado de uma voz. Abro os olhos. Não há ninguém. Há uma mesa com um gramofone. É dele que sai a voz feminina e doce. Imagino Janet Cardiff. Noto que sua voz, como a de qualquer outra pessoa, tem peso e densidade corporal (desta vez, as caixas e os dispositivos tecnológicos não suprimiram o corporeidade da voz). De olhos fechados sinto a tatibilidade da presença humana, mas ao meu redor sei haver apenas caixas, cadeiras e um gramofone.
As caixas, elas me servem de transporte para uma época em que não vivi. Sinto-me medieval, devota, em êxtase, situada fisicamente no meio de um coro de vozes. Uma experiência litúrgica? As caixas me transportam para um espaço que não é físico, embora eu o habite com meu corpo e com meus órgãos de sentido. Como num sonho, sinto a brisa do mar tocar minha face. Sinto o cheiro salgado do mar e minha pele rememora a umidade ligeiramente áspera da maresia. As ondas exercem sobre mim medo e opressão. Tenho medo, mas não desejo de fugir. Permaneço estática na minha cadeira. Externamente, quase inerte. Por dentro, um turbilhão de sensações e pensamentos.
“O que é a criatividade? O que faz o artista mover-se em direção à criação? O que o estimula a se projetar imaginativa e livremente sobre palavras, sons, objetos, espaço? Que experiência o habita quando ele se põe a compor?”
Sinto a solidão do artista. Lembro-me que é preciso estar só para surgir esse desejo de comunicar o incomunicável, uma vivência não-conceitual, nem teórica nem prática, mas sempre reiterável.
Lembro-me das teorias, das escritas acadêmicas e tenho um desejo desolador de não mais discutir obra alguma. Preciso de categorias de arte, de teorias ou instituições para me certificarem que a partir delas terei experiências tão arrebatadoras como esta?
Desejo adentrar no espaço profundo em que se conhece e se contempla a própria humanidade e o desejo primordial de simbolizar a existência, de transformar um fragmento de rocha num veículo xamânico, detentor de poder que ultrapassa minha experiência finita.
Caí de joelhos diante da obra.
Tudo se passou como se eu houvesse vivido toda minha vida para sentir aquele momento. Só então pude compreender que o que nos move, artistas e público, ao fazermos e apreciarmos obras de arte é uma necessidade intratável, indomável, incomensurável, de compartilharmos e simbolizarmos esse desconhecido que nos habita.
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Um constante vir-a-ser
por Mariana Lage
Sempre atual. Nascido do convívio de dois anos entre Denise Stoklos e a escultura francesa radical nos Estados Unidos, o espetáculo “Louise Bourgeois: faço, desfaço, refaço” aborda a vida, a obra e as sucessivas indagações desta artista inquieta que é também pensadora, escritora e desenhista.
Foi lendo os escritos e vendo os diversos trabalhos de Bourgeois que a atriz, diretora e coreógrafa motivou-se a elaborar um trabalho cênico que tratasse da grandeza transformadora da escultura. “Por mais que nos aproximemos de seu trabalho há sempre mais a surgir das diversas camadas de seus desenhos, trabalhos em pano, em bronze, em ferro, em aço e a própria palavra que ela esculpe nos seus escritos”, explica Stoklos.
Se Louise serviu como inspiração e como matéria viva da composição deste trabalho-solo, ela se tornou também responsável pela cenografia, pelo texto e por parte da música. Uma relação simbiótica que coloca a escultora como sujeito, autora e, ao mesmo tempo, personagem do espetáculo. Como explica Stoklos, um curto-circuito acomete todo a apresentação. “Isso é muito profundo para mim mesma, como atriz, pois não tenho o controle absoluto desta situação. É mais uma questão de leitura do público que atribui esse ‘ligar e desligar’ da atriz com a personagem e vice-versa, que tem por conta o fato que faço do texto narrativa e o assumo na primeira pessoa ao mesmo tempo”, descreve.
No palco, a proximidade entre as duas artistas são colocadas em jogo constantemente, o que contribui para que cada apresentação seja uma nova versão possível. “Esta ‘construção e reconstrução’ é um processo que a escultora passa a todo momento. É seu processo dialético de criação, ela mesma debate a sua própria proposta e apresenta-se uma síntese para em seguida debatê-la novamente, e assim segue”, explica Denise. “É um dos processos mais saudáveis que vi e experimentei para quem tem a posição de querer estar sempre discutindo-se e chegando a novas posições, aproveitando seus amadurecimentos e estando sempre presente!”, complementa.
O espetáculo estreou em Nova York no Moma, em 2000 e teve poucas apresentações nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.
Com Denise Stoklos
12 a 14 de março
21h (sexta e sábado), 19h (domingo)
Teatro Alterosa
Informações: 3237-6611
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Gilberto Esparza
por Daniel Toledo

Uma boa notícia para as pessoas que tem pouco tempo e disposição para cuidar de plantas domésticas: foi desenvolvido um vaso-robô capaz de movimentar-se de acordo com a presença de luz solar. O que poderia ser confundido com mais uma comodidade da vida urbano-individualista, é na verdade uma obra do artista mexicano Gilberto Esparza – um dos convidados da 7a Bienal do Mercosul, que segue em cartaz até o dia 28 de novembro em Porto Alegre.
Nascido nos anos 70, Esparza tem desenvolvido um trabalho artístico ao mesmo tempo crítico e bem humorado, que desvenda as cidades como complexos e curiosos ecossistemas. Nesse sentido, as relações de consumo, reciclagem e parasitismo estabelecidas em ambientes naturais são poeticamente reinterpretadas por inusitados elementos urbanos como postes, fios de energia elétrica, montes de lixo e, como já se viu, plantas domésticas.
Por meio de intervenções estáticas e de robôs que portam idéias, desejos e medos, Esparza trata de temas extremamente pertinentes à vida urbana (sobretudo em cidades latino-americanas): desperdício, escassez, precariedade e esforços de subsistência, para citar alguns. Segundo ele, a cidade é um organismo vivo e a tecnologia – quase sempre low-tech – pode ser tratada como uma parte essencial desse organismo. Para além dos efeitos de interação e animação urbana, o artista interessa-se pela possibilidade de provocar perplexidade, de confundir e impressionar os transeuntes, motivando-os a decifrar acontecimentos estranhos e aparentemente espontâneos. Na visão de Esparza, essas micro-intervenções estão diretamente relacionadas ao que acontece no nível macro – e quem dirá que não?

A partir dessa concepção e inspirado por vendedores ambulantes que fazem ligações clandestinas entre seus quiosques e postes de rua, o artista desenvolveu o projeto Parasitos Urbanos. De um modo geral, o projeto compreende o desenvolvimento de formas artificiais de “vida” que subsistem às custas de fontes de energia geradas pela espécie humana. De acordo com necessidades específicas, essas espécies incorporam-se a determinados espaços e estruturas da cidade e passam a habitar, em caráter mais ou menos permanente, tais paisagens urbanas. Enquanto diablitos e colgados alimentam-se dos cabos de energia que atravessam o céu das cidades, os pepenadores habitam pequenos montes de lixo tecnológico que comumente se acumulam em algumas regiões de grandes cidades.
A intervenção Cancer de Urbe, por sua vez, traz para o espaço da cidade a lógica inconsequente das células câncerígenas. Nesse trabalho, determinados elementos da paisagem urbana parecem sofrer processos de proliferação acelerada, desordenada e descontrolada, alterando o equilíbrio de outros elementos do entorno. Trata-se, assim, de anomalias visuais e funcionais inseridas no contexto da cidade – como um poste em que as luminárias se multiplicaram de modo excessivo e disfuncional ou uma faixa branca de sinalizacão que acabou tornando-se mais longa do que a própria rua.

Mas é com alguns exemplares de uma outra espécie de parasita urbano que, ao lado da mulher-automóvel de Marcela Armas e da (incrível) kombi-árvore de Pablo Rivera, o artista mexicano integra a mostra Texto Público da 7a Bienal do Mercosul. Para visitar o Brasil, Esparza trouxe alguns robôs-moscas que, seja em vagões de metrô ou galerias de arte, mantêm o legítimo hábito de disputar território com qualquer ser humano que se aproxime. Vivemos, afinal, em tempos de escassez e nem mesmo as moscas estão livres da batalha pela subsistência – ainda que precária.
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Blanche Neige
por Mariana Lage

A respeito de sua mais recente criação, apresentada em BH neste fim de semana nos dias 1 e 2 de novembro, Angelin Preljocaj a descreve como “um conto de fadas às avessas”. Segundo o coreógrafo, sua versão de Branca de Neve nasceu de um desejo de contar uma história por meio da dança contemporânea. Diante de suas criações marcadamente abstratas, Preljocaj, que empresta o nome à companhia, diz ter se guiado também pela vontade de “evitar ficar repetitivo” e fazer algo completamente diferente.
Ao aliar ao seu processo compositivo o figurino de Jean Paul Gaultier e a música de Gustav Mahler, o Ballet Preljocaj promete proporcionar a releitura contemporânea de uma prática clássica: contar histórias com início, meio e fim e com uma lei moral que a anima. Em entrevista a jornalista francesa Àgnes Freschel, e ao que parece a única cedida pelo coreógrafo desde a montagem do espetáculo, ele explica ter seguido a versão dos Irmãos Grimm, “com apenas algumas variações pessoais baseadas na minha própria análise dos símbolos do conto”. Se o psicanalísta norte-americano Bruno Bettelheim classificou sua Branca de Neve como um Édipo invertido, o coreógrafo assume um desejo de inversão: “A perversa madrasta é, sem dúvida, a personagem central no conto. É ela quem eu examino através de sua narcisista determinação de não abrir mão da sedução e de seu papel como mulher, mesmo que isso signifique sacrificar sua enteada”.
De fato, uma versão de Branca de Neve às avessas seria uma história em que a madrasta se torna a protagonista. No entanto, o avesso da ‘moralidade’ de um conto infantil a la Irmãos Grimm seria uma narrativa destituída de vítimas e carrascos. Numa história intitulada “A madrasta”, quem seria essa Branca de Neve que deseja lhe tomar o lugar e o toma? Quais forças estariam em embate entre brancas de neves, anões mineiros, príncipes e madrastas? E o que elas representariam – para além de um pensamento “o bem vence o mal”?
Em Blanche Neige os elementos contemporâneos em diálogo no palco estão a serviço de uma prática clássica não revisada. Não há desconstrução da narrativa e a releitura dos símbolos não parece ser o marco do trabalho, porque não se mostra suficientemente evidente para marcar de fato uma ruptura ou uma inovação na leitura. É releitura ou desconstrução simbólica de forma ambígua, uma vez que já na versão dos Irmãos Grimm existe essa oscilação entre a pureza infantil e o desabrochar do feminino. Uma ambiguidade que constantemente brinca com o imaculado e com o lascivo e que Preljocaj traz aqui e ali nos pax-de-deux da princesa em momentos e com parceiros diferentes.

Sem dúvida, é o desabrochar do feminino que está em questão, mas o embate entre virgindade e lascívia em Preljocaj camufla-se em grande parte do espetáculo sob o confronto entre a inocência e pureza da princesa (como o belo, o bom e o verdadeiro) e a vaidade da madrasta (como a maldade humana). Num conto de fadas às avessas, a voluptuosidade do corpo de baile apareceria como parte central e como campo de batalha em que as forças e os símbolos da branca de neve e da madrasta estão em transição. Nesse caso, seria melhor pensar em lascívia do que em luxúria, a fim de que a releitura atual de um conto infantil não se torne moralizante. Embora os termos sejam bastante próximos, um deles carrega consigo carga de pecado e culpa. Portanto, pensar a sensualidade evidente no momento de transição de menina a mulher, sem carregar tal momento do peso extra da culpa da moral. Numa reversão deste conto infantil, seria preciso evidenciar a carga simbólica de cada personagem sem contudo polarizá-los como representantes do bem e do mal.
Num conto de fadas às avessas, a madrasta não é boa nem má. Ela simplesmente é o feminino em suas múltiplas faces. Uma Branca de Neve invertida desabrocha o feminino de forma voluptuosa sem contudo abdicar ou retornar a sua brancura.
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